Alckmin luta por independência sem romper com Serra

No front político, governador vê sombra do antecessor rondar o dia a dia; na área administrativa, busca autonomia, sem causar fraturas

Julia Duailibi e Roberto Almeida, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

No fim de janeiro, integrantes da bancada tucana na Câmara dos Deputados articularam um abaixo-assinado para reconduzir o deputado Sérgio Guerra (PSDB-PE) ao cargo de presidente nacional do partido. Ao saber da notícia, o ex-governador José Serra procurou o governador Geraldo Alckmin na mesma noite.

A assinatura de deputados da bancada paulista no documento fez com que a ação fosse vista como uma manobra de Alckmin e do mineiro Aécio Neves para isolar Serra e evitar que o candidato derrotado na eleição presidencial de 2010 pleiteasse a função de presidente para viabilizar seu projeto político.

Serra queria que o governador divulgasse, na mesma noite, uma nota negando qualquer participação com Aécio na articulação. Não houve a nota. Mas, no dia seguinte, Alckmin deu a seguinte declaração: "Nem sei se o Serra quer ser presidente do partido. Mas, se quiser, terá meu integral apoio".

O episódio ilustra, de certa forma, os 100 dias de governo Alckmin: no front político, um período marcado pela influência de um ex-governador que não deixou de frequentar o Palácio dos Bandeirantes. Na seara administrativa, a busca por autonomia, sem a ruptura com a gestão anterior.

Logo que foi formado o governo de transição, entre novembro e dezembro passados, Alckmin já dava indícios de que não promoveria um rompimento com Serra. Chegou a oferecer ao ex-governador o espaço que lhe conviesse na futura administração. Como se sabe, Serra não aceitou - e até hoje diz a aliados que não pretende aceitar. Fez, no entanto, indicações, como a de Dilma Pena para a Sabesp. E sugeriu a manutenção de Antonio Ferreira Pinto na Segurança.

Pente-fino. Depois da transição em que foi chamado de "personalista" por quadros tradicionais do PSDB, ao privilegiar o seu grupo na formação do governo, Alckmin assumiu promovendo um pente-fino em atos da era Serra-Goldman. Despertou a ira do ex-governador, que ligou para integrantes do governo para reclamar de declarações de Julio Semeghini (Gestão Pública) sobre o tema.

Nos bastidores, aliados do governador ainda não haviam digerido o apoio de Serra à reeleição do prefeito Gilberto Kassab, que disputou o cargo com Alckmin em 2008. Houve ataques à gestão Serra sob a alegação de que a máquina do Estado fora inchada em ano eleitoral. "Precisamos cortar a tradicional gordura de último ano do governo passado", disse um tucano após participar da primeira reunião do secretariado, no dia 3 de janeiro.

O governador determinou um "redesenho" na área dos Transportes. Mandou rever trâmites para a duplicação da Rodovia dos Tamoios, prevista pelo governo Serra, e a construção da ponte estaiada ligando Santos ao Guarujá, cuja maquete havia sido visitada pelo ex-governador pouco antes de se desincompatibilizar do governo para disputar a Presidência.

Aliados de Alckmin não economizaram palavras para criticar o governo anterior na área de prevenção de enchentes e na expansão dos Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs) em ano eleitoral, iniciativa que causou impacto nas contas da Saúde.

Na medida em que a administração ganhava autonomia, as críticas também apareciam. "Dei ordem para o meu pessoal ir tocando o dia a dia sem olhar para trás", disse um secretário, que tem boa relação com Serra, ao comentar telefonemas e e-mails de "serristas" recebidos por funcionários da pasta para cobrar projetos cancelados ou modificados.

Nos primeiros três meses de governo, Alckmin buscou como maior diferencial incrementar a interlocução com segmentos da sociedade civil. Tentou reverter a relação ruim do governo anterior com o funcionalismo, mais especificamente com o sindicato dos professores. Na tentativa de demonstrar "abertura" para o diálogo, anunciará nos próximos dias um "conselhão" nos moldes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo federal, formado por 40 integrantes.

Na área política, criou a Câmara de Desenvolvimento Metropolitano, buscando ações cirúrgicas em redutos petistas e contato mais próximo com prefeitos.

Crises. Abrindo a fase de más notícias, Alckmin foi acusado pela Procuradoria Regional Eleitoral, em janeiro, de ter cometido possíveis irregularidades na captação de recursos para a campanha ao receber doação de concessionárias de serviços públicos. O caso ainda não foi julgado, e o PSDB nega irregularidade.

O primeiro escândalo de repercussão, no entanto, teve nome próprio e parentesco: Paulo César Ribeiro. Cunhado de Alckmin, foi alvo de investigação do Ministério Público de São Paulo por supostos desvios em contratos com a Prefeitura de Pindamonhangaba.

O maior constrangimento, porém, veio do gabinete logo abaixo do seu, o do vice-governador Guilherme Afif Domingos, que decidiu sair do DEM e acompanhar Kassab, desafeto do governador, na empreitada de fundar uma nova legenda, o PSD.

Alckmin tentou dissuadi-lo. E Afif tentou mostrar a Alckmin que a articulação não seria ruim para ele. Um dia antes de anunciar a mudança, os dois se encontraram no gabinete. O vice insistiu que a nova legenda marcharia unida com os tucanos na eleição municipal de 2012, mas o governador não se convenceu. A maioria dos integrantes do núcleo duro do governo o aconselhou a tirar Afif da Secretaria de Desenvolvimento, pasta que acumula com a vice.

Diante de um quadro eleitoral fragilizado com os movimentos de Kassab, Alckmin passou a apontar Serra como candidato a prefeito no ano que vem, ciente de que ele é capaz de trazer o prefeito para a aliança.

Não agradou ao tucano, mas demarcou território. Demonstrou, sobretudo, saber aonde quer chegar ao alimentar a proximidade política com Serra, neste primeiro trimestre de governo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.