Além do Código Florestal

Com o rompimento do acordo que, bem ou mal, fora assinado pelas suas lideranças em torno do texto de reforma do Código Florestal do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), o governo exibiu a fragilidade de sua articulação política, insuficiente até aqui para administrar os conflitos de interesses entre PT e PMDB - para ficar nos dois maiores partidos de sua base de sustentação.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

À parte o mérito da questão ambiental, o que emerge do episódio da última quarta-feira é a necessidade do Planalto de apelar para um recurso regimental próprio das minorias - a obstrução em plenário -, para salvar-se de uma derrota acachapante. O texto do relator seria aprovado por mais de 400 votos se posto em votação.

É certo que estava em pauta uma causa de maioria suprapartidária que exige uma negociação muito mais ampla e complexa do que as dos confrontos rotineiros entre governo e oposição. Mas o Planalto condenou seu líder na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), à desconfiança eterna dos seus pares e, por extensão, comprometeu sua credibilidade.

O sentimento de insatisfação na base não se limita apenas a nomeações frustradas - embora saciadas, representem forte componente de sedução política. Está em curso uma oposição silenciosa à estratégia da presidente Dilma Rousseff de implantar uma gestão de resultados, baseada no modelo privado, inconciliável com o poder político na forma em que este se consolidou no País.

Nesse quadro, resta ao Planalto o poder coercitivo, cuja eficácia - mostra a história - diminui na proporção do desgate natural dos governos.

Estilo gerencial

A estratégia de terceirizar a negociação política para evitar a pressão pessoal, tem custado à presidente Dilma Rousseff críticas generalizadas dos parlamentares da base aliada. São muitas as queixas de deputados por não serem recebidos pela presidente, que também refletem a insatisfação dos ministros com igual tratamento. O estilo gerencial de reuniões coletivas para balanço das metas assumidas cada vez incomoda mais e constrange ministros que se ressentem da falta de conversas individuais com a presidente - sempre um sinal de prestígio, mas sobretudo uma oportunidade de tentar o convencimento pessoal para salvar interesses partidários.

Mais fôlego

A visibilidade reconquistada com sua participação decisiva no adiamento da votação do Código Florestal devolveu à ex-senadora Martina Silva algum fôlego na sua luta pela renovação no comando do Partido Verde. Mas prevalece ainda o prazo informal estabelecido - até o final do ano - para que o atual presidente, deputado José Luiz Penna (SP), deixe o cargo no qual já está há 12 anos. Amigos do rei

Nos próximos dias, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) apresenta projeto de lei que implanta o orçamento impositivo em relação aos recursos do Orçamento da União destinados à segurança pública. Segundo Aécio, os recursos repassados ao Fundo Nacional de Segurança e ao Fundo Penitenciário (Fupen) são contingenciados pelo governo federal. A ideia é que os recursos não possam mais ser retidos pela União e sejam transferidos mensalmente por duodécimos aos governadores. "O mais amigo do governo vai lá, dá a facada e leva", diz. Qualquer relação com o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), é mera coincidência.

Reação

Para o senador Eunício de Oliveira (PMDB-CE), o medo dos políticos de perder tempo de TV em 2012 tem sustado adesões ao PSD. No Ceará, reverteu a adesão de dois deputados federais com esse argumento.

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