Alemão monta complexo turístico no Vidigal

Planos de Rolf Glaser, que já comprou 37 imóveis na favela de São Conrado, incluem hotéis, bistrô, loja de sucos e até mesmo um museu

Pedro Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

28 Fevereiro 2009 | 00h00

O empresário alemão Rolf Glaser, de 62 anos, mexeu com a imaginação dos cariocas ao comprar 17 barracos no Morro do Vidigal, em São Conrado, zona sul do Rio, e anunciar a construção de hotéis, conforme o Estado noticiou em novembro. Hoje, o investidor já arrematou 37 propriedades, entre casas, barracos, terrenos e a mansão onde vive, comprada por R$ 350 mil, e diz que sua meta vai além da hospedagem. "Quero criar infraestrutura que faça o turista gastar dinheiro no Vidigal, para empregar pessoas e fazer com que a comunidade se desenvolva. Não gosto dessa coisa de tour em favela, onde o visitante entra, vê a miséria e vai embora."Morando na parte nobre do morro, Rolf fiscaliza pessoalmente as obras. E sonha em ver cariocas frequentando a comunidade. "Andaram falando que seriam hotéis de luxo, que gastei R$ 30 milhões. Nada disso é verdade. Não quero criar uma Búzios. Não quero que o Vidigal perca sua alma."Ele conta que chegou a considerar o Morro do Chapéu Mangueira, no Leme, mas optou pelo Vidigal porque "quase todas as casas têm vista para o mar". Na parte alta, conhecida como "Arvrão", 251 metros acima do nível do mar, com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, Leblon e Ipanema, serão construídos o hotel e casas para turistas. Para o meio do morro, está prevista a construção de lavanderia, padaria, cafeteria e ateliê de moda. Na parte baixa, perto do acesso, hostel, loja de sucos e bistrô. Rolf acredita que tudo ficará pronto até o fim do ano. A fase de investimento está encerrada. "Gastei R$ 1,1 milhão na compra de casas e terrenos. Não comprarei mais nada." O clima entre os cerca de 30 mil moradores da favela é de expectativa. Ao contrário de novembro, a reportagem não encontrou ninguém armado nas ruas. "As pessoas estão com muita esperança", atesta Antônio Golgestein, de 31 anos, líder comunitário do Vidigal e atual secretário de Rolf. Investimentos sempre foram o forte do alemão, que construiu patrimônio com a casa de câmbio Exchange AG Berlin, uma das maiores da Europa, que acabou vendendo. Ele sempre manteve negócios paralelos - do mercado imobiliário de Miami ao interesse por joias, que o trouxe ao Rio pela primeira vez em 1980. "Pensava em ir para a Califórnia, mas cheguei ao Brasil e gostei." Entre idas e vindas, fez amigos e se casou com uma brasileira, com quem tem uma filha. "Meus amigos aqui disseram que estava louco e seria sequestrado. Minha mulher nem queria ouvir falar. Não culpo gente do asfalto por esse preconceito. Estrangeiro não teme a favela, porque nunca passou por assalto ou teve amigo atingido por bala perdida." Rolf importou da Alemanha um dos três professores de informática e contratou quatro de inglês no Rio. E capricha nos detalhes. "Não quero fazer apenas mais uma loja de sucos. Quero fazer uma loja de sucos que o carioca só ache no Vidigal." A reforma das casas está a cargo do arquiteto Hélio Pellegrino, autor de projetos luxuosos no Brasil e exterior, que aposta: "Esse projeto vai quebrar o paradigma de casa grande e senzala no Rio. Vou seguir exemplo do que foi feito em Positano, Itália, cuja topografia é parecida. Comprei madeira de demolição e me inspirei no centro antigo do Rio."O alemão diz que, se o projeto Vidigal Feliz prosperar, cerca de 50 famílias devem adaptar suas casas e oferecer o sistema bed & breakfast, onde o visitante paga por cama e refeição. Fascinado pela história da comunidade, ele ainda quer criar o Museu da Favela Carioca, para lembrar momentos como a visita do papa João Paulo II, em 1980. Para a socióloga da FGV Bianca Freire-Medeiros, a iniciativa não é "delírio de gringo". "Há um interesse internacional pela favela carioca, que se converteu em marca que agrega valor e evoca ideia de autêntico, descolado."

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