Alencar desiste do Senado e fica até fim do governo

Decisão do vice-presidente atende aos interesses do Planalto e aumenta a chance de pacificar a disputa PT-PMDB em Minas

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

/ BRASÍLIA

O vice-presidente José Alencar desistiu de disputar uma cadeira no Senado por Minas Gerais. A decisão de permanecer no governo até o final do mandato atende aos interesses do Planalto.

A decisão de Alencar aumenta as chances de pacificar a briga entre PT e PMDB em Minas, além de acabar com a possibilidade de o senador José Sarney (PMDB-AP), terceiro na linha de sucessão, assumir a interinidade já no próximo domingo, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajará para Washington,

Para não trazer problemas para a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, Lula temia que, nas suas ausências do País, o noticiário focasse novamente escândalos envolvendo Sarney, um aliado dos últimos sete anos citado em denúncias de corrupção, disseram assessores.

Lançado como balão de ensaio pelo próprio Lula ao governo de Minas, com objetivo de enfraquecer a influência política do ex-governador Aécio Neves (PSDB) no processo, Alencar virou um problema para o Planalto quando manifestou interesse em disputar o Senado. Com o nome dele na briga por uma vaga no Senado - a outra já estaria com Aécio, a briga entre os petistas Patrus Ananias e Fernando Pimentel e o peemedebista Hélio Costa se acirrou. Os três, que pretendem disputar o governo, não teriam a alternativa do Senado.

Na noite de quinta-feira, Alencar conversou com Lula sobre a possibilidade de não disputar as eleições. O vice-presidente negou, em entrevista, que Lula tenha pedido para ele não concorrer, mas evitou dar detalhes da conversa. "Só quem pode falar é o presidente", afirmou. Indagado se estava sacrificando um mandato quase certo ao Senado, para evitar desgaste do Planalto com uma interinidade de Sarney, o vice sorriu: "Isso aí, tu dizes."

Numa entrevista na manhã de ontem, acertada com o próprio Lula, Alencar disse que desistiu de se candidatar em respeito aos eleitores. "Não sei se seria honesto colocar meu nome como candidato no momento em que faço quimioterapia", disse. "Como não posso parar a quimioterapia, criaria uma dúvida nos eleitores."

Solidariedade. "Cientificamente não posso dizer que estou curado", afirmou. Segundo o vice, a solidariedade recebida durante o processo de tratamento do câncer não se transformaria automaticamente em votos. "A solidariedade não se traduz em votos. As pessoas votam por partido e por ideologia", avaliou. "Uma eleição não é brincadeira."

Alencar ironizou a aliança informal entre Dilma e o governador e candidato à reeleição Antonio Anastasia (PSDB) - a "Dilmasia". "Isso aí eu não vi. Também não tenho mais idade para doença nova. Isso é nome de alguma doença?"

O vice cobrou pressa da base aliada para definir um nome de consenso para concorrer com Anastasia e acabar com a guerra travada entre Patrus Ananias, Fernando Pimentel e Hélio Costa.

Alencar esbanjou bom humor durante a conversa com os jornalistas. Ele disse que um homem público não sai da política, mas é retirado. Também falou sobre seu futuro, após o término de mandato: "Meu futuro não é tão longo, meus planos são menores." Durante a entrevista, os olhos lacrimejavam, mas Alencar assegurou que não estava chorando: "Faz parte do tratamento."

Para entender

Regras diferenciadas

A desincompatibilização do vice-presidente está prevista na Lei Complementar número 64, de 1990. Pela legislação, ele não precisa renunciar ao mandato para disputar qualquer cargo na eleição. No entanto, não pode substituir o presidente seis meses antes do pleito. Na ordem da sucessão, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), assumiria o governo durante a ausência de Lula. Temer, porém, também não pode assumir, pois será candidato. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), terceiro na linha sucessória, estava cotado para assumir a Presidência. Como Alencar desistiu de concorrer ao Senado, ele vai substituir Lula.

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