Alfaiate tem em casa bomba da Revolução de 24

Passados 85 anos, artefato virou uma das poucas relíquias dos 23 dias de bombardeio sobre a capital

Fábio Mazzitelli, O Estadao de S.Paulo

11 Julho 2009 | 00h00

O alfaiate Hércules Caetano Castagna, de 90 anos, guarda nas lembranças de criança o estrondo que interrompeu o almoço da família na Mooca, em julho de 1924. A bomba destruiu a parede do sobrado, girou como peão na cozinha e queimou os braços do pai de Hércules, que a levou para o quintal, longe dos 12 filhos e da mulher. O artefato nunca explodiu e, passados 85 anos, virou relíquia, uma das poucas dos 23 dias de bombardeio sobre a capital. Entre 5 e 28 de junho de 1924, São Paulo foi palco de uma revolta tenentista que pretendia tomar a cidade e, a partir daí, marchar para o Rio de Janeiro para destituir o governo do presidente Arthur Bernardes. Os planos fracassaram, a capital foi cercada por tropas federais e bombardeada, o único bombardeio da história da cidade. Bairros operários, como a Mooca da família Castagna, foram alguns dos alvos das bombas legalistas, motivadas pelo temor de que seus moradores engrossassem as fileiras dos revoltosos. "Foi terrível, fez um rombo na parede deste tamanho", recorda Hércules Caetano, abrindo os braços para dar a dimensão do buraco aberto pela bomba na parede da cozinha. Dos 700 mil habitantes de São Paulo na época, cerca de 300 mil fugiram da cidade, que estava sob bombardeios de canhão e avião. Os 14 integrantes da família Castagna estavam entre eles. Foram à casa de um carvoeiro amigo da família, em São Caetano. "Era tudo mato lá." Manuela Tarraço Castagna, 86 anos, era bebê quando os tenentes do Exército e da Força Pública se rebelaram. Casou-se com Hércules e, por tabela, com a "granada", como a bomba é conhecida em família. Hoje, além de ter muito ciúme do artefato, refaz a história tão bem quanto o marido. "Além de fugir para São Caetano, a família dele tinha de comer polenta todo dia porque só tinha fubá", recorda Manuela. A família dela também passou por provações. A contagem oficial das vítimas parou em 503 mortos e 4.846 feridos. Para o professor de História da Universidade de São Paulo e coordenador do Arquivo Público do Estado, Carlos Bacellar, não há dúvida de que morreu mais gente. "Consta que Arthur Bernardes mandou suspender a contagem dos mortos. Houve fuzilamentos sumários, sepultamentos em covas coletivas. Muitos civis que fugiam do cerco das tropas federais eram mortos", afirma. Não há um único monumento na capital que faça alusão à memória das centenas de vítimas. Para os historiadores, o esquecimento é explicado, entre outros motivos, porque o movimento não surgiu nem se enraizou na elite política paulista. Ao contrário do que ocorreu com a Revolução Constitucionalista de 1932. "Os governos autoritários que vieram nos anos posteriores também ajudaram nesse processo (de esquecimento histórico)", acredita Anna Maria Martinez Correa, autora de um livro sobre a revolta esquecida de 1924. Mas na residência do casal Castagna, que continua na Mooca, nem mesmo a memória ferida do nonagenário Hércules, que desenvolve a doença de Alzheimer, sepulta as lembranças da guerra e, sobretudo, da paz.

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