Aliado fiel, apesar das críticas aos juros

Relação de Alencar com Lula foi marcada pela extrema confiança, mas sem abrir mão de convicções sobre a condução da política econômica

, O Estado de S.Paulo

30 Março 2011 | 00h00

A passagem de José Alencar pela Vice-Presidência da República foi marcada pela lealdade a Luiz Inácio Lula da Silva, mas sem a completa submissão ao presidente. Alencar foi um dos poucos membros do governo a pedir a redução dos juros durante o primeiro mandato e a criticar a alta carga tributária.

Em pouco tempo, tornou-se uma voz dissonante da política econômica do então ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Alencar, em consonância com sua biografia de empresário, defendia uma interferência política nas decisões econômicas do governo, principalmente em relação aos até então elevados juros praticados pelo Banco Central. Mas, ao ser questionado sobre sua pregação, respondia tratar-se de uma crítica "técnica".

Palocci, de seu lado, rebatia que não deveria haver critérios políticos para as decisões do Banco Central. Em 2008, Alencar disse em entrevista que as elevadas taxas de juros impediam o governo de fazer um efetivo corte de gastos públicos. Segundo ele, o governo Lula teria mais musculatura para enfrentar a turbulência global e poderia ter economizado cerca de R$ 300 bilhões se nos primeiros quatro anos não tivesse adotado uma política monetária "equivocada".

"Esse superávit primário, é uma excrescência. Esse adjetivo de superávit primário não existe. O Orçamento é um só. A rubrica de juros tem de estar arrolada nele. Tenho falado isso no governo há cinco anos", disse Alencar no ano passado, quando o ministro da Fazenda já era o atual, Guido Mantega.

Divergências à parte na área econômica, Alencar foi um aliado fiel de Lula em oito anos de governo. Como vice, bateu o recorde de mais de 450 dias de interinidade no exercício da Presidência - ou seja, substituiu Lula por mais de um ano, enquanto o titular viajava para fora do País.

Na primeira viagem do presidente ao exterior, em janeiro de 2003, abriu o Salão Nobre do Palácio do Planalto para festejar o compositor Ari Barroso, seu ídolo. Cantou trechos de Aquarela do Brasil. Gostava também das músicas de Noel Rosa e da voz de Orlando Silva.

Em 2004, acumulou a Vice-Presidência com o cargo de ministro da Defesa, no qual permaneceu até 2006, a pedido de Lula. Mas nunca se sentiu à vontade no posto e pediu para ser substituído.

Alencar estreou na política em 1950, quando apoiou Getúlio Vargas para a Presidência da República e Juscelino Kubitschek para o governo de Minas. Em 1994, candidatou-se a governador, sua primeira eleição. Perdeu, mas voltou à cena em 1998, quando se elegeu senador pelo PMDB, com mais de 3 milhões de votos dos mineiros.

Ao se aliar a Lula para disputar a Presidência, como candidato do antigo PL, em coligação com o PT, Alencar brincou que, como o ex-metalúrgico do ABC, ele também era sindicalista, "só que do outro lado".

Ironia

Em 2008, bem-humorado, José Alencar disse que, de tanto ser homenageado, temia que não sobrassem homenagens a receber após a sua morte.

Repercussão

CEZAR PELUSO

PRESIDENTE DO STF

"José Alencar demonstrou firmeza de caráter e força de vontade inquebrantável, que o levaram a tornar-se um dos líderes mais respeitados do Brasil contemporâneo"

OLAVO MACHADO JR.

PRESIDENTE DA FIEMG

"Foi protagonista da história do País, guardião de princípios e valores só encontrados nos grandes estadistas. Por sua história, fibra e coragem, é exemplo e lição de vida"

ROBSON DE ANDRADE

PRESIDENTE DA CNI

"Ele foi um industrial ousado e um líder empresarial que soube, com sabedoria e espírito empreendedor, construir o maior grupo têxtil do País. Perdemos um brasileiro exemplar"

ODILO SCHERER

CARDEAL ARCEBISPO DE SP

"Serviu exemplarmente o Brasil, como vice-presidente, e edificou a todos com seu amor à vida, sua dedicação ao povo, sua fé em Deus, coragem e serenidade para enfrentar a longa enfermidade"

JOSÉ SARNEY

PRESIDENTE DO SENADO

"Perdemos um grande brasileiro, um grande político, um gladiador pela vida, um homem que tinha coragem de discordar, concordar, de ser solidário. Ele deixa o seu exemplo pessoal"

MARINA SILVA

EX-SENADORA

"Acredito que todos que acompanharam seu drama foram positivamente influenciados pela forma como encarou a doença, com tranquilidade e transparência"

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