Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

​Alunos mantêm ocupação na maior escola do Paraná e convocam reunião

Eles não concordam com acordo firmado com o governo; outros seis prédios haviam sido liberados pelos estudantes até a tarde de sábado

Pablo Pereira, Enviado especial

29 Outubro 2016 | 13h58

CURITIBA - Os alunos do Colégio Estadual do Paraná (CEP), o maior do Estado, com cerca de cinco mil alunos matriculados, decidiram manter a ocupação do CEP, horas depois de terem criticado o acordo que colocou fim às desocupações, mas que seria cumprido. Uma reunião interna provocou a reviravolta na situação. Eles irão se reunir neste domingo, 30, na sede do CEP, com outros representantes de colégios ocupados de Curitiba e da Região Metropolitana (RMC). 

O anúncio da permanência foi feito em um pronunciamento conjunto pelas lideranças do movimento. “Ontem, não aceitamos negociar com a arma da reintegração apontada para o movimento, hoje indicamos para todas as escolas do Paraná e do Brasil, que se mantenham e resistam e ocupem suas escolas e ruas, amanhã todos estudantes da Região Metropolitana irão se reunir às 10 (horas), aqui no CEP, para fortalecer as estratégias do movimento, o maior movimento secundarista do mundo”, informou.

O núcleo central do movimento dos secundaristas, o Colégio Estadual do Paraná (CEP), começaria a ser desocupado na tarde deste sábado, 29. Estudantes decidiram não aceitar o acordo firmado na sexta-feira entre o governo do Estado e entidades estudantis, que preservava a ocupação no local, mas determinava a retirada dos manifestantes das outras 24 escolas estaduais tomadas. Até a tarde deste sábado, seis prédios haviam sido liberados pelos manifestantes, mas em outros 19 os líderes ainda avaliavam a possibilidade de aguardar ordem judicial para sair.

“Em nenhum momento concordamos com o apresentado pelas autoridades, deixando evidente que a decisão não cabe a apenas um representante. Nós fomos atraídos para uma reunião que deveria ser uma discussão de caráter emergencial sobre as reintegrações de posse. O que aconteceu, porém, foi um coerção do Estado para a desocupação em massa”, acusou um dos líderes do movimento.

É deste “quartel-general” da organização, localizado na parte alta da Avenida João Gualberto, bairro do Alto da Glória, que os secundaristas orientaram a maior mobilização estudantil da história recente do Paraná. O colégio, atualmente com cerca de 5 mil alunos, é famoso no Estado pelo ensino de personalidades. O ex-presidente Jânio Quadros foi matriculado no fim dos anos 20. Artistas como o poeta Paulo Leminski, o ator Ary Fontoura e os escritores Cristóvão Tezza e Dalton Trevisan estudaram no Colégio Estadual do Paraná. E diversos operadores do Judiciário, como o procurador-geral Olympio de Sá Sotto Maior Neto, um dos mais ativos negociadores na crise atual, também estão na lista dos ilustres alunos da instituição.

Inspirado, segundo estudantes, nos acontecimentos de 2015 em São Paulo, quando a Polícia Militar desocupou escolas à força, o movimento dos secundaristas ganhou força a partir da semana seguinte ao primeiro turno da eleição municipal. Do CEP, eles chegaram a controlar a paralisação de mais de 850 escolas paranaenses. O Estado tem 1,1 milhão de alunos na rede estadual e mais de 2,1 mil escolas. Segundo o governo Beto Richa (PSDB), só em Curitiba, mais de 80 mil alunos foram atingidos pela paralisação.

Explicando qual a origem da força da mobilização, uma das estudantes do comando contou que o protesto contra medidas do governo federal segue ainda o exemplo do movimento contra a reforma de ensino no Chile, que paralisou o sistema educacional daquele país, em 2006. “Nosso movimento tem também a inspiração da Revolta dos Pinguins”, disse.

Black blocs. Com representantes do que eles chamam de “coletivos” secundaristas que se definem como libertários, antifascistas, anarquistas e até de defensores de causas de igualdade de gênero, os jovens são tachados na rua, por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) e grupos contrários à ocupação, como “black blocs”, “mascarados baderneiros” e “comunistas”. E também são acusados de estar sendo usados como massa de manobra de professores em greve e de partidos do chamado campo da esquerda, como PT e PC do B, desgastados nas urnas após o impeachment de Dilma Rousseff. 

“É normal que defensores do governo, que nós criticamos, façam oposição ao movimento”, resumiu a estudante que se identificou como Clara, aluna do 1.º ano. “Mas dizer que somos manipulados, é absurdo. A gente discute a MP da reforma do ensino, que prevê retirada de disciplinas, como a Filosofia, pela qual sou apaixonada. E trazemos gente para explicar a PEC dos gastos públicos. Nós sabemos, sim, muito bem, o que queremos”, prosseguiu a estudante Ana Gabriela, diante da pesada porta do CEP, trancada com corrente e cadeado durante a semana de ocupação. “Os partidos podem dar apoio, mas o protagonismo é nosso”, completou Clara.

Na Assembleia Legislativa, a afirmação parece encontrar eco. Para o deputado Rasca Rodrigues (PV), o movimento é uma novidade política no Paraná, que deve ser observada como as manifestações das ruas em 2013. “Eles não estão aceitando a classe política no processo”, disse. Rodrigues pondera que, além das ocupações, houve também o aparecimento reforçado no processo de pessoas que são contra e lutam pela volta às aulas. “Essas mobilizações da direita, de quem é contra, também educam politicamente”, afirmou.

Investigação. Denúncias de violência e desrespeito contra os menores que ocuparam os colégios em Curitiba deverão ser investigadas nas próximas semanas. Durante o período de ocupação, pais e alunos relataram casos de assédio moral e pressões psicológicas, supostamente praticados por diretores. O grupo Advogados Pela Democracia, que acompanhou os casos, deve fazer uma força-tarefa para reunir material e encaminhar para a Comissão de Direitos Humanos da OAB-PR. “Estamos reunindo relatos”, disse a advogada Tânia Mandarino./ COLABOROU JULIO CESAR LIMA, ESPECIAL PARA O ESTADO​

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