Alvo do 'grupo da harmonia', Amapá vira terra sem lei

Aliança entre as principais autoridades locais tem ajudado a tornar Estado palco de escândalos sucessivos sem perspectivas de mudanças

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2010 | 00h00

Oposição enfraquecida, cooptação de lideranças de poderes que deveriam fiscalizar o Executivo, pouco espaço para denúncias na imprensa local. A hegemonia política do chamado "grupo da harmonia", aliança feita no Amapá entre as principais autoridades locais, tem ajudado a transformar o Estado em palco de escândalos e prisões sucessivos sem que haja perspectivas de mudanças.

A eleição atual, por sinal, vai contar com candidaturas de presos em operações da Polícia Federal no Amapá desde 2004.

Além das candidaturas de Waldez Góes (PDT) ao senado e da tentativa de reeleição do governador Pedro Paulo Dias (PP), ambos presos na Operação Mãos Limpas, concorrem ao cargo de deputado estadual João Henrique Pimentel (PR), ex-prefeito de Macapá pelo PT, e a deputado federal Sebastião Bala Rocha (PDT), ex-senador e secretario de Saúde, ambos presos na Operação Pororoca, de 2004.

As fraudes na saúde são apontadas desde a Pororoca sem que quase nada mudasse. Em 2007, durante a Operação Antídoto I e II, outros dois secretários foram presos por suspeitas em fraudes na compra de remédios - Uilton Tavares e Abelardo da Silva Vaz. Na Operação Mãos Limpas, o governador Pedro Paulo foi o quarto secretário seguido a ser preso por suspeitas em fraudes.

Começo. O "grupo da harmonia" começou a se fortalecer em 2002, quando Waldez Góes assumiu o governo sucedendo a João Capiberibe (PSB). Pregava o bom relacionamento entre os poderes e conseguiu avanços. Fecha com o grupo o presidente da Assembleia, Jorge Amanajás (PSDB), que concorre a governador e foi chamado para depor na Operação Mãos Limpas; o presidente do Tribunal de Contas do Estado, Julio de Miranda, ex-presidente da Assembleia Legislativa ainda preso na mesma operação; e até parte da oposição, como é o caso de uma ala do PT, que tem cargos na Companhia de Eletricidade do Amapá em composição com o atual governo.

O favorito na corrida para governo, Lucas Barreto (PTB), que é considerado um outsider ao grupo, conta com as bênçãos do senador José Sarney (PMDB-AP). Entre 2007 e 2008, Barreto foi um dos beneficiados por um dos mais de 600 atos secretos no Senado com salário de R$ 7 mil.

O senador Sarney, aliás, é o fiel da balança do grupo. Político com envergadura nacional e grande influência no governo federal, foi ele quem conseguiu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravasse depoimento no horário eleitoral aos dois candidatos a senador apoiados por Sarney (Gilvam Borges, do PMDB, e Waldez Góes) e desse as costas ao candidato petista e da coligação. Manter bom relacionamento com Sarney é condição necessária para continuar em harmonia no Amapá.

Os Capiberibes que o digam. São atualmente os únicos a assumirem confronto aberto com o grupo - apesar de alianças terem sido feitas anteriormente. Os efeitos políticos são evidentes. A deputada federal Janete Capiberibe (PSB) foi cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral, acusada de compra de votos em 2002, mesma acusação que deve levar à decisão pela cassação do marido, João Capiberibe.

Boa parte da imprensa contribui para o ambiente pacificado ao se calar apesar dos sucessivos escândalos. Sobrevivem graças aos recursos de propagandas institucionais da Secretaria Estadual de Comunicação, da ordem de R$ 7 milhões.

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