Dida Sampaio/Estadão
Há dez dias, manifestantes fecharam rua no bairro Remedios 2, no municipio de Santana, em protesto pela falta de energia no Amapá Dida Sampaio/Estadão

Amapá tem novo apagão total, confirma ONS

A comunicação só é possível nos locais em que há internet sem fio, com equipamentos abastecidos por geradores

Anne Warth, Amanda Pupo e Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 22h14
Atualizado 18 de novembro de 2020 | 18h51

BRASÍLIA - O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou que um novo apagão atinge todo o Estado do Amapá na noite desta terça-feira, 17. As causas do blecaute ainda não foram divulgadas.

É o segundo apagão que atinge o Estado neste mês. Há duas semanas, no dia 3, um incêndio na subestação Macapá, da concessionária Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), deixou 14 dos 16 municípios do Amapá no escuro por quase quatro dias. Após esse primeiro blecaute, o serviço chegou a ser restabelecido, mas nunca voltou 100% e operava por meio de rodízios. 

A reportagem procurou o Ministério de Minas e Energia (MME), que informou que o sistema elétrico apresentou instabilidade e as causas estão sendo investigadas. Segundo a pasta, a energia será gradualmente restabelecida. A Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) informou que o problema ocorreu novamente na área da subestação Macapá, da LMTE. e que já inseriu no sistema 97 megawatts de carga, correspondente à metade da energia que estava anteriormente disponível.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico informou que o apagão começou às 20h31. O órgão diz que está trabalhando para restabelecer a totalidade das cargas no estado o mais breve possível. "O transformador da subestação Macapá não apresentou problema, a UHE Coaracy Nunes está gerando energia e a CEA, distribuidora local, está inspecionando as linhas e subestações para identificar a causa da ocorrência", informou por meio de nota.

 

Em nota, a LMTE informou que o apagão não teve origem em sua linha de transmissão e que não há nenhum problema no transformador instalado na subestação da LMTE, que segue disponível e operando desde 7 de novembro.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) informou que houve um novo apagão no Estado às 20h35. À reportagem, ele disse que não há energia em toda Macapá e nos municípios de Santana e Mazagão. "Nesse momento, com exceção dos locais que têm algum gerador, a cidade está toda no escuro. Estou falando com você agora, mas, daqui a pouco, vou deixar de ter wifi", disse. 

 

“ATENÇÃO!! Estamos novamente com APAGÃO TOTAL no Amapá. É URGENTE um esclarecimento das autoridades responsáveis sobre o que aconteceu neste momento”, publicou o senador, em sua conta no Twitter.

Com o novo apagão, os serviços de telefonia móvel também estão prejudicados nessas localidades. Não é possível fazer ou receber chamadas telefônicas nas áreas afetadas.

A comunicação só é possível nos locais em que há internet sem fio, com equipamentos abastecidos por geradores. Desde o início da crise, os hotéis de Macapá estão lotados. 

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Empresa do apagão do Amapá levou quase um ano para arrumar transformador

Operadora enfrentava problemas com o equipamento desde dezembro e somente no último domingo, 15, levou o transformador para manutenção; se ele já estivesse arrumado, impacto do incêndio teria sido menor

Anne Warth e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 17h39

BRASÍLIA - A empresa responsável pela subestação em Macapá que pegou fogo e causou um apagão em praticamente todo o Amapá levou quase um ano para enviar um transformador que estava inoperante para conserto. Com problemas desde dezembro, o contrato de reparo do equipamento foi assinado em setembro, mas o Estadão/Broadcast apurou com duas fontes que o transporte do transformador até Santa Catarina, onde será feita a manutenção, começou apenas no último domingo, 15 de novembro.

A subestação é operada pela Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LTME), que deveria ter três transformadores prontos para levar energia ao Estado. A reportagem questionou a empresa sobre onde estava o equipamento danificado desde dezembro neste momento. Inicialmente, a resposta foi que estava com o fabricante para reparos especializados na fábrica, em Santa Catarina. Depois, corrigiu, afirmando que estava em trânsito, a caminho da fábrica. A concessionária foi questionada sobre o dia exato do embarque do transformador, mas disse que nenhuma outra informação seria divulgada a respeito desse equipamento até o momento.

A Gemini Energy detém 85,04% de participação na linha, e 14,96% são da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), autarquia do governo federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR).

Um incêndio ocorrido no último dia 3 destruiu um dos transformadores da subestação e danificou um segundo, que levou quase quatro dias para ser reparado. Um terceiro estava inoperante desde dezembro do ano passado e, por causa disso, o Amapá ficou quase quatro dias sem luz. Desde então, a população enfrenta racionamento. O restabelecimento completo só poderá ocorrer quando um transformador vindo de Laranjal do Jari (AP) chegar em Macapá e entrar em operação.

Se o terceiro transformador da subestação tivesse sido consertado antes, o transtorno poderia ser menor, com parte do atendimento restabelecido mais rapidamente. As informações sobre o contrato de reparo, a desmontagem e a previsão de conclusão do serviço estão no documento da inspeção judicial feita no último dia 11 pelo juiz federal João Bosco Costa Soares da Silva.

A descrição do ocorrido ao juiz foi feita por um funcionário da Gemini, André Calheiros, gestor da unidade. Segundo ele, o contrato foi assinado com uma fabricante de Santa Catarina em “setembro ou outubro do corrente ano”, e tem “previsão de conclusão do serviço foi delimitada em 14 (quatorze) meses” – ou seja, entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022.

“Por essa razão, informou que o mencionado transformador estava em processo de desmontagem e, logo após, a peça defeituosa será encaminhada para aquela fábrica”, disse o funcionário, segundo informações do auto circunstanciado de inspeção judicial do caso.

Questionada sobre o tempo que levou para essa contratação, a empresa afirmou que a manutenção do equipamento foi iniciada em janeiro, “no mesmo dia em que a necessidade de reparos foi identificada”, e que foram seguidos todos os procedimentos tecnicamente corretos de manutenção: “tentativa de religar, troca de peças e testes, incluindo a análises do interior do transformador”.

De acordo com a empresa, “após esgotadas todas as possibilidades”, foi tomada a decisão, em setembro, de que ele fosse transportado até a fábrica para conserto. “O equipamento pesa 200 toneladas (equivale a uma casa com quatro quartos), o que faz com que a logística para o transporte seja bastante complexa. Importante frisar que todos esses procedimentos foram comunicados às autoridades competentes”, afirmou a LTME, sem deixar claro em que data isso foi realizado.

Demora

O Estadão/Broadcast consultou técnicos para questionar se o tempo de retorno da operação do transformador estava adequado. Eles consideraram o prazo excessivo mesmo para uma região isolada como o Amapá, em que o acesso se dá por balsas. Por essa razão, a empresa, na avaliação deles, deveria ter se antecipado e contatado o fabricante assim que detectou o problema.

Para essas fontes, ainda no decorrer de testes já é possível ter indicações sobre as chances de o equipamento voltar a funcionar. Fazer análises no interior do transformador, como relatou a empresa, já é um forte indício de que será preciso enviá-lo ao fabricante. Isso porque somente é possível abrir um transformador em ambiente controlado, com baixa umidade.

No laudo de inspeção, o juiz também registra que o representante da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) afirmou que o órgão monitora, prioritariamente, todo o sistema energético de forma remota, pela análise de desempenho, uma vez que não há servidores suficientes para fazer a análise in loco. Calheiros, da Gemini, destacou ainda que trabalha na subestação desde 2016 e que nunca havia testemunhado uma fiscalização presencial pela Aneel.

A Gemini Energy tem como sócios os fundos de investimento Starboard, com 80%, e a Perfin, com 20%. Eles entraram no negócio após a Isolux vender ativos no País, depois que entrou em recuperação judicial na Espanha.

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Aneel diz que relatório sobre causa de apagão no Amapá ficará pronto nos próximos 10 dias

Documento é importante para definir eventuais punições no caso; 13 dos 16 municípios do Estado ficaram sem fornecimento de energia

Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 11h40
Atualizado 17 de novembro de 2020 | 21h04

BRASÍLIA - Passo importante para que eventuais punições sejam aplicadas no caso do apagão no Amapá, o relatório que mostrará a causa do problema, chamado de análise de perturbação, deve ser finalizado nos próximos dez dias, afirmou nesta terça-feira, 17, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone. 

Ele participou de uma audiência pública na comissão mista do Congresso para prestar esclarecimentos sobre o apagão do último dia 3, que deixou 13 dos 16 municípios do Estado sem luz. "Acredito que nos próximos 10 dias teremos relatório de análise de perturbação, que vai apontar tudo o que aconteceu no caso da subestação", afirmou. A subestação é operada pela Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LTME) - da qual a empresa privada Gemini Energy detém 85% de participação na linha. 

Segundo Pepitone, a partir desse relatório, três medidas podem ser tomadas. Uma delas é a aplicação de multa por cada não conformidade que for identificada no caso, de 2% da receita da empresa. Outras possibilidades previstas em lei são a caducidade (fim do contrato) ou intervenção na concessão. "Fiscalização pode nos dar elementos para caducidade ou intervenção da concessão", disse. 

O documento pode ainda municiar uma eventual ação civil pública para reparação de danos, ponto sobre o qual o Ministério Público Federal (MPF) pode ser um aliado. Pepitone lembrou que o óleo que precisa ser transportado para alimentar os geradores que vão atender emergencialmente a população geram custos para o sistema elétrico, o que pode ser ressarcido por meio de uma eventual ação na Justiça. 

"Do ponto de vista da regulação, nós estamos garantindo que todos os consumidores que tiverem equipamentos queimados ocasionado por falta de alimentação de energia serão ressarcidos dentro do setor elétrico", disse o diretor-geral da Aneel.

Ao ser questionado sobre como uma falha nessa amplitude poderia ocorrer nos dias atuais, Pepitone afirmou que nenhum sistema elétrico é infálivel. "O que não podemos aceitar é negligência, somente o relatório vai nos dar condição para apurar correta causa."  

Auxílio para a população do Estado

O diretor-geral da Aneel mencionou a possibilidade de o Congresso aprovar alguma medida de auxílio aos consumidores do Amapá afetados pelo apagão, a exemplo do que já ocorre com a tarifa social.

Por meio dela, são concedidos descontos na tarifa de energia para consumidores de baixa renda. "Poderíamos estar pensando em algo similar nesse momento crítico do Amapá", disse Pepitone na audiência pública.

Ele afirmou que qualquer medida nesse sentido demandaria aprovação de uma lei e sugeriu que a própria comissão mista que acompanha as ações de combate à covid-19 proponha algo. "Podemos opinar, ser propositivos, poderia ser até iniciativa da comissão uma ação nesse sentido, de buscar alguma medida a exemplo da tarifa social para consumidores afetados no Amapá."

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Governo autoriza contratação adicional de energia termelétrica para socorrer Amapá

Com a medida, o governo ampliou o volume de energia autorizado para contratação para até 120 megawatts

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2020 | 19h39

BRASÍLIA - O governo decidiu contratar até 60 MW adicionais de energia de termelétricas para atender o Amapá, que enfrentou apagão por quase quatro dias após o incêndio em uma subestação e racionamento até que os reparos sejam concluídos. A decisão foi tomada em reunião extraordinária do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) realizada nesta segunda-feira, 16. Com a medida, o governo ampliou o volume de energia autorizado para contratação para até 120 megawatts (MV).

“Esse montante adicional visa agregar maior disponibilidade de recursos para atendimento à demanda do Estado do Amapá e aumentar a confiabilidade, evitando, portanto, o prolongamento do risco de suprimento apenas parcial à localidade”, informou o MME.

No início do mês, um apagão deixou 14 de 16 municípios sem luz no Amapá. Agora, a população do Estado enfrenta um racionamento  até que um segundo transformador possa entrar em operação, o que está previsto para o dia 26.

Em relação ao restante do País, o CMSE informou que as chuvas ainda estão abaixo da média histórica nas principais bacias da região Sudeste/Centro-Oeste e que os armazenamentos das hidrelétricas continuam próximos ou inferiores aos níveis observados no ano passado, principalmente no Sul.

“Nesse contexto, o colegiado destacou a importância de se manter a adoção das medidas excepcionais atualmente vigentes para a menor degradação dos armazenamentos dos reservatórios equivalentes das usinas hidrelétricas e manutenção da governabilidade das cascatas”, disse o MME.

O Comitê já havia decidido, em 16 de outubro, adotar medidas como o acionamento de térmicas fora da ordem de mérito e a importação de energia a partir da Argentina ou do Uruguai para reduzir a geração hidráulica na região Sul.

“Além disso, foram apresentadas diversas outras ações em curso ou em avaliação, que visam ao aumento das disponibilidades energéticas no Sistema Interligado Nacional (SIN), dentre as quais a reprogramação de manutenções em unidades geradoras, ações para o aumento da disponibilidade plena de combustível para a geração das usinas térmicas e avaliações quanto à flexibilização de restrições hidráulicas existentes”, disse o MME.

Em relação à hidrelétrica de Furnas, o CMSE aprovou a operação da usina abaixo da cota de 756 metros, “limiar estabelecido na regra operativa vigente para o início da operação da usina a fio d’água, condição que implicaria em perdas energéticas da ordem de 3.300 MWmed”. A decisão foi aprovada “apesar dos prejuízos advindos da violação de regra operativa”, pois a quantidade de água que chega aos reservatórios da região está entre as piores da história.

“Dessa maneira, considerando as atuais condições adversas de atendimento eletroenergético, o Operador apresentou ao CMSE proposta contemplando a necessidade de operação do reservatório da usina hidrelétrica (UHE) Furnas abaixo da cota 756 m, com a manutenção da operação da UHE Mascarenhas de Moraes a fio d’água a partir da cota 656,7 m nesta usina”, disse o MME.

“Assim, o tema será comunicado à Agência Nacional de Águas (ANA), bem como ao fórum que acompanha o tema, para que seja garantida a devida transparência quanto à motivação apresentada pelo Operador. Além disso, o ONS deverá reavaliar a estratégia operativa a ser adotada para este período úmido, ou seja, entre dezembro de 2020 e abril de 2021, e apresentar aos demais atores envolvidos.”

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Gastos com apagão no Amapá serão divididos com todos na conta de luz

Estado está sem energia desde a semana passada, após um incêndio desligar a linha de transmissão e as usinas que abastecem a região; ministério autorizou a contratação emergencial de usinas térmicas para retomar o fornecimento

Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 12h49
Atualizado 13 de novembro de 2020 | 20h08

BRASÍLIA - Parte das despesas para retomar o fornecimento de energia no Amapá, com a contratação emergencial de usinas térmicas, será bancada por todos consumidores do País. O Estado está sem energia desde a semana passada, após um incêndio na subestação Macapá. O incidente causou o desligamento da linha de transmissão e das usinas que abastecem a região. 

Os custos serão embutidos na conta de luz por meio do Encargo de Serviços do Sistema (ESS), que serve para manter a estabilidade do sistema elétrico. Essa conta será rateada entre os consumidores atendidos pelas distribuidoras, como os residenciais, e pelos que operam no chamado mercado livre, como indústrias. O valor final dependerá da quantidade de energia, do tempo que esse acionamento será necessário e do custo do combustível que será usado pelas usinas.

A medida está prevista na portaria publicada pelo Ministério de Minas e Energia na última sexta-feira, 6. Diante da situação de calamidade pública no Amapá, o governo federal deu aval para a Eletronorte, subsidiária da Eletrobrás, atuar no restabelecimento do serviço. O ministério autorizou a empresa a contratar “de forma célere, excepcional e temporária” até 150 MW por até seis meses ou quando houver reconhecimento de condição satisfatória de atendimento ao Estado.

Segundo o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nivalde de Castro, o encargo é usado como um “curinga” para quando há necessidade de atendimento emergencial. “É uma medida, do ponto de vista legal e energético, correta. O custo é muito alto, mas é rateado entre todos os consumidores. O Estado está há muito tempo sem energia elétrica, então, faz sentido essa decisão”, afirmou.

Até setembro, os consumidores pagaram R$ 457,5 milhões em encargos de serviços do sistema elétrico. Segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o valor está abaixo do que foi registrado no mesmo período do ano passado, R$ 1,574 bilhão. A redução deve-se à forte queda da demanda por energia durante os primeiros meses da pandemia do novo coronavírus, que reduziu a necessidade de térmicas em funcionamento no País. 

O Ministério de Minas e Energia conta com a contratação emergencial para suprir totalmente o fornecimento de energia no Amapá até a próxima semana. De acordo com a pasta, cerca de 80% do serviço já foi restabelecido. Pela portaria, a Eletronorte está autorizada a contratar imediatamente 40 MW de geração. Questionada pelo Broadcast Político, a empresa não informou a quantidade e condições dos contratos que estão sendo negociados.

O Tribunal de Contas da União (TCU) vai apurar se houve algum tipo de omissão do poder público no incidente que levou ao apagão no Amapá. A ministra Ana Arraes determinou à área técnica da corte de contas que investigue se o governo agiu com a diligência que o caso exigia. Dez dias depois do blecaute, a energia ainda não foi completamente restabelecida no Estado.

Na representação, o TCU coloca dúvidas sobre a gestão da concessionária Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE). Essa concessão pertencia à Isolux, que entrou em recuperação judicial na Espanha. Hoje, a linha é da Gemini Energy, empresa que pertence aos fundos de investimento Starboard e Perfin e que detém 85,04% da linha. Uma parcela de 14,96% pertence à Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), com quem a concessionária tinha uma dívida que foi convertida em participação.

“De acordo com os relatórios de qualidade na transmissão, a concessionária já foi penalizada em mais de R$ 6 milhões em sua parcela variável de remuneração nos últimos cinco anos, por deficiências na qualidade”, diz o TCU.

O apagão afetou também o fornecimento de água para a população do Amapá, que tem dificuldade até para comprar itens básicos de alimentação. O já precário sistema estadual de saúde pública ficou ainda mais pressionado. Com a queda no sistema elétrico, a comunicação da rede do setor foi cortada e prejudicou o controle de registro de novos pacientes com suspeitas da covid-19 que procuram o primeiro atendimento nas unidades regionais.

 

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Sem energia elétrica, vacinas foram refrigeradas em açougue no Amapá

No interior, cidade de Tartarugalzinho teve de improvisar porque posto de saúde não tem gerador; Estado entra no 10º dia de apagão

Vinícius Valfré, enviado especial, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 05h00

TARTARUGALZINHO (AP) - A interrupção no fornecimento de energia elétrica colocou em xeque as vacinas à disposição dos 17 mil moradores de Tartarugalzinho, cidade de frágil infraestrutura na floresta do Amapá. Com o apagão que atingiu o Estado, a luz parou de chegar à unidade básica de saúde (UBS) onde ficam as duas geladeiras com os materiais, que demandam refrigeração permanente.

A saída emergencial para que não se estragassem os lotes de vacinas - como a tríplice viral, a de hepatite B e a antirrábica - foi transferir as geladeiras para um açougue, um dos poucos locais com energia na cidade, 230 km ao Norte de Macapá. 

As geladeiras com as vacinas ficaram no local improvisado por seis dias, de quarta-feira da semana passada até a última segunda-feira, 9, quando voltaram para o posto de saúde. Além de carne, o estabelecimento trabalha com produtos variados de material de construção.

"Todas as vacinas utilizadas pela população tiveram de sair daqui por causa do apagão. Não temos gerador. Armazenamos tudo em caixas térmicas. Mas depois tivemos que levar para o açougue que tem gerador", afirmou Bete Correia, diretora da UBS José Meireles. 

O atendimento nas duas únicas unidades de saúde do município chegou a ser suspenso. “Era uma urgência. As vacinas poderiam estragar e deixar de atender muitas crianças”, contou o açougueiro Alessandro Juan, de 43 anos. Morungaba, como ele é conhecido, fez um investimento providencial no início do ano. O gerador que custou R$ 14 mil ajudou a socorrer também outros comerciantes e vizinhos.

Na última segunda-feira, o presidente Bolsonaro disse que a situação estava 70% resolvida. Se na capital do Estado o rodízio de luz é falho, no interior as consequências do apagão são ainda mais severas. A equipe do Estadão registrou nos municípios de Tartarugalzinho, Ferreira Gomes e Porto Grande o drama das famílias com as quedas de energia. Nas ruas centrais sem asfalto, os comunicados oficiais de Brasília não fazem eco, ante a falta de luz e energia.

Só três cidades, abastecidas com sistemas diferentes daquele que pegou fogo no último dia 3, não estão às escuras: Oiapoque, Laranjal do Jari e Vitória do Jari. Em municípios como Calçoene e Amapá, os dramas ainda são profundos.

No bairro do Trem, em Macapá, onde mora o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (DEM), o rodízio de energia é regular. A luz tem hora para chegar e para ir embora. As casas do entorno de hospitais da região metropolitana estão beneficiadas por alimentação permanente. Nos rincões do Estado, a vida está longe de voltar ao normal.

Sem gelo

Lenilton Barbosa dos Santos, 39, não pesca desde a terça-feira da última semana, 10. Morador da comunidade de Andiroba, entre Tartarugalzinho e Ferreira-Gomes, precisa de gelo para armazenar os tucunarés que tira do Rio Tartarugalzinho. “Sem gelo não dá para pescar. Arrumei um trocado porque consegui uma mandioca que um rapaz me deu, fiz farinha e vendi. Comprei açúcar, café, coisas para manter as crianças. Mas já acabou”, disse.

Lenilton conseguiu acesso a não mais do que três parcelas do auxílio emergencial de R$ 600 pagos pelo governo. Com dois terços do dinheiro presenteou a si próprio com uma geladeira, em agosto - ela está fora da tomada desde a semana passada. “Não tem como funcionar. A energia vai e volta.”

Para não perder a pouca comida que tinham, a mulher dele salgou o alimento. “A gente tem de colocar sal na carne e no peixe para não estragar. A água também não tá boa. Quando a luz vem, a gente enche a caixa e vamos distribuindo”, disse Ziane Souza Santos, 28, enquanto o caçula de seis filhos, Diogo, de 11 meses, dormia em seu colo.

O casal reservou o dia para viajar ao centro de Tartarugalzinho para, entre outras coisas, atualizar os cadastros de pescadores e conseguir um cartão do SUS. A informação no hospital era a de que não havia internet para atendê-los. A viagem foi perdida. Custou cerca de R$ 50.

No breu das noites de Tartarugalzinho, bem longe de Brasília, não resta muito a não ser esperar e resistir. Em uma roda de cantoria no centro da cidade, um grupo de jovens matava o tempo iluminado pela luz das estrelas e por celulares. Cantavam a canção É preciso saber viver, de Roberto e Erasmo Carlos.

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