Dado Galdieri/The New York Times
Dado Galdieri/The New York Times

Amazônia sem lei: piratas aterrorizam rios à noite

À medida que a população da região cresce e os traficantes de drogas ampliam a influência, aumentam os ataques de homens mascarados armados com rifles

Simon Romero, The New York Times

28 Novembro 2016 | 11h48

MACAPÁ - Os piratas do Rio Amazonas gostam de atacar quando a noite cai.

Usando máscaras de esqui, 15 bandidos invadiram o barco de Merinaldo Paiva enquanto dezenas de passageiros dormiam nas redes. De repente, eles acordaram com rifles apontados para suas cabeças.

Os homens armados levaram dinheiro, joias, smartphones, combustível e até comida, forçando todos a ficarem deitados de bruços no convés. Depois, desapareceram em lanchas pelo Amazonas, via navegável tão grande que, na fronteira do Brasil, há quem o chame de rio mar.

"Todo capitão de barco fluvial sabe estar à mercê desses desgraçados", disse o capitão Paiva, de 41 anos, que cruza os rios das florestas tropicais brasileiras desde que era adolescente. "Tivemos sorte de não ter sido pior", ele acrescentou a respeito do roubo, em abril, listando outros ataques nos quais passageiros foram estuprados, torturados ou mortos.

A pirataria é uma constante nos rios da anárquica selva brasileira, mas à medida que a população amazônica cresce e traficantes de drogas ampliam a influência na região, as oportunidades de roubou floresceram. E as forças policiais lutam para conter o crime, que culminou em uma série de eventos recentes que apavoraram as tripulações e os passageiros dos barcos.

Em outubro, quatro piratas mascarados com rifles tomaram o controle de um barco de combustível no Rio Solimões e roubaram quase 10 mil litros de diesel, além de dinheiro, relógios e as roupas da tripulação. Em setembro, dez homens mascarados invadiram um barco de passageiros nos arredores da cidade de Belém, roubando 260 pessoas de uma só vez. Os bandidos usaram uma passageira como escudo humano durante os momentos de agonia.

No mês anterior, a polícia divulgou um vídeo dos homens de um bando - que se autointitula Piratas do Rio Solimões - interrogando um rival ao lado de um cadáver, alarmando a população ribeirinha de toda a bacia amazônica.

Em um caso anterior nas proximidades da cidade de Manaus, Huederson Paulino, pirata que usava o nome de guerra Moicano, confessou matar e esquartejar dois homens em um barco que vende gelo e sal. Ele liderou o bando que roubou o dinheiro e o combustível das vítimas, dizendo que o objetivo era gastar dinheiro para o Natal.

"Eu precisava de dinheiro, então fiz o que era melhor para mim", declarou aos repórteres Paulino, de 24 anos.

O alarme crescente em relação à pirataria se liga às mudanças rápidas na região. Longe de ser uma área ampla de floresta tropical salpicada de pequenos entrepostos, a Amazônia brasileira tem quase 25 milhões de pessoas; a população de Manaus é de quase 2 milhões de habitantes. A população amazonense aumentou 22% entre 2000 e 2010, segundo dados do censo - quase o dobro da taxa de crescimento do País como um todo.

Só que a Amazônia também é uma das regiões mais pobres do Brasil, e o crime organizado se espalhou, alimentando uma sensação de desrespeito à lei na grande bacia do rio. Em vilas ribeirinhas remotas, os moradores reclamam que os barcos da polícia raramente se aventuram pelos igarapés onde ocorrem muitos dos ataques piratas.

As autoridades dizem fazer o possível. Aqui em Macapá, cidade com 370 mil habitantes, uma esquadrão de elite de policiais camuflados do Batalhão Ambiental patrulha regularmente o Rio Amazonas em busca de piratas, chamados de ratos d'água na região.

"Da mesma forma que bandidos atacam viajantes rodoviários em outros lugares do Brasil, os piratas são o flagelo que enfrentamos na Amazônia", disse o tenente-coronel Protásio Barriga Caldas, de 47 anos, comandante do Batalhão Ambiental, composto por 135 membros, do Estado do Amapá.

Caldas conta que os piratas costumam usar lanchas, obtendo uma rapidez e uma agilidade desconhecidas pelos grandes barcos fluviais. Segundo ele, os piratas costumam vir de áreas urbanas pobres ou de vilarejos ribeirinhos distantes, atacando moradores da floresta que se valem de barcos para comprar alimentos, visitar parentes ou procurar assistência médica nas cidades amazônicas.

Patrulhar os colossais rios da Amazônia em busca de piratas parece um jogo inútil de gato e rato. Durante missão em outubro, os policiais questionaram os moradores de um povoado nos arredores de Porto de Santana que afirmaram viver temendo os piratas.

"Não existe lei no Rio Amazonas", afirmou Odete Souza França, de 49 anos, cuja família ganha a vida pescando e cultivando açaí.

Ela descreveu um ataque recente no qual os piratas abordaram a canoa de seu filho de 17 anos, amarraram-no e roubaram seu aparelho de GPS e um botijão de gás de cozinha.

"Pegar piratas é como combater guerrilheiros. Eles são inimigos evasivos que tiram proveito do conhecimento das correntes fluviais, da geografia e da topografia", comparou o capitão Lúcio Lima, chefe da unidade de operações especiais da polícia do Amapá que caça bandidos pelo rio.

Quando dois exploradores poloneses - Dawid Andres, de 41 anos, e Hubert Kisinski, de 33 - viajaram por toda a extensão do Rio Amazonas neste ano, usando uma espécie de jangada movida à bicicleta, enfrentaram perigos como águas infestadas por piranhas e redemoinhos.

Mesmo assim, o momento mais assustador foi quando piratas no Brasil os abordaram três vezes. Todas as vezes, conseguiram escapar do perigo na base da conversa.

"Parece um pesadelo quando um bando usando óculos escuros e segurando armas grandes o aborda no rio", contou Kisinski.

Citando um episódio, ele e Andres explicaram calmamente que estavam viajando sem artigos valiosos, e perguntaram se os piratas não tinham cerveja para esfriar os ânimos.

"Eles até se acalmaram um pouco e começaram a rir. É preciso ter a cabeça fria quando se lida com piratas na Amazônia."

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