Ameaça de CPI faz governo agir e tirar assinaturas

Oposição alcançou apoio de 27 senadores, mas à noite, pressionado pelo Planalto, João Durval (PDT-BA) voltou atrás

Vera Rosa e Andrea Jubé Vianna / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2011 | 00h00

Após o discurso do ex-ministro e senador Alfredo Nascimento (PR-AM), a oposição se mobilizou, no final da tarde de ontem, e chegou a conseguir as 27 assinaturas necessárias para pedir a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar denúncias de irregularidades na área dos Transportes. Nos minutos finais do expediente, no entanto, ao menos um dos signatários - o senador João Durval (PDT-BA) - voltou atrás. Ao longo da noite, os oposicionistas ainda tinham esperança de obter outra assinatura, mas corriam o risco, também, de sofrer novas desistências.

O risco de instalação da CPI preocupa a presidente Dilma Rousseff. Na tentativa de contornar o descontentamento da base, a presidente deve se reunir hoje com o Conselho Político, formado por presidentes e líderes de partidos da coalizão.

Além de Durval, a oposição havia conseguido nas últimas horas do dia o apoio dos senadores Reditário Cassol (PP-RO), suplente de Ivo Cassol, Ricardo Ferraço (PMDB-ES), e Zezé Perrela (PDT-MG). No total, dez senadores da base haviam assinado o requerimento da CPI.

"Uma CPI nunca é boa para o governo, apesar de o governo não temer a CPI", admitiu o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR). O requerimento foi encaminhado à Secretaria-Geral da Mesa do Senado para conferência das assinaturas. Se os 27 forem conseguidos hoje, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) - ou qualquer senador que esteja interinamente na presidência do plenário - terá que fazer a leitura do documento. A partir dessa leitura, o Planalto tem até meia-noite para conseguir retirar as assinaturas.

A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, conversou ontem à noite com a presidente sobre os problemas de uma eventual CPI.

Depois da faxina nos Transportes, que derrubou 27 pessoas, a palavra de ordem no Planalto é "repactuação". A meta é convencer mais aliados a retirar o apoio à CPI. Se a tática fracassar, o governo fará de tudo para evitar que as investigações se transformem numa "CPI do Fim do Mundo" - apelido dado à CPI dos Bingos, que infernizou o Planalto no rastro do escândalo do mensalão, em 2005.

O comentário, no Planalto, é que ninguém sabe o que está por vir. Auxiliares de Dilma temem que a oposição, comandada pelo PSDB, consiga angariar apoio dos insatisfeitos e dê início a uma "guerra de dossiês".

Mágoa. À parte essa disputa, a avaliação do Planalto era que o pronunciamento de Alfredo Nascimento no Senado não havia sido "protocolar", como líderes do PR haviam prometido a Ideli. Para o Planalto, o ex-ministro escancarou a mágoa com Dilma ao dizer que nem ele nem o PR eram "lixo". A estratégia, apesar do tom acima do esperado, foi considerada "do jogo", mas deixou o governo em alerta.

Há receio de que o PR faça de tudo para derrubar o atual ministro, Paulo Sérgio Passos, e inviabilizar a nova administração do Dnit. Ao apartar o colega de Senado e de partido, Maggi foi direto: "Se a presidente Dilma quiser continuar com o ministro Passos, que continue. Mas ele não é do PR".

Na lista de preocupações do Planalto está ainda o depoimento do ministro da Agricultura, Wagner Rossi (PMDB), hoje na Câmara. Rossi foi acusado por Oscar Jucá Neto, irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), de comandar um esquema de corrupção na pasta e na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

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