Celso Júnior/AE
Celso Júnior/AE

Amigo de Peluso, advogado de Roriz fala sem ser interrompido

Ministros criticam estilo do presidente do STF, que costuma cortar a palavra dos outros, mas Gordilho estourou tempo de defesa

Felipe Recondo , Mariângela Gallucci / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

BRASÍLIA

O advogado de Joaquim Roriz, Pedro Gordilho, fazia a sustentação no Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Lei da Ficha Limpa. Teria 15 minutos para defender os argumentos de seu cliente.

Amigo pessoal do presidente do STF, Cezar Peluso, Gordilho correu risco. Os 15 minutos se aproximavam, mas Peluso estava de cabeça baixa quando o tempo estourou. Na semana passada, aos 14 minutos da sustentação de um advogado, o presidente do Supremo interrompeu a defesa para dizer "o senhor tem mais um minuto".

O advogado de Roriz, no entanto, ultrapassou os 15 minutos e continuou falando. Aos 17 minutos da explanação, o secretário da sessão cutucou o presidente.

Peluso ainda aguardou uma pausa do advogado e disse que, "infelizmente", teria de interromper a sustentação, mas lhe garantiu mais um minuto. Assim, Gordilho pôde falar durante 18 minutos.

A interrupção dos debates, segundo reclamações de ministros do Supremo, é uma característica do estilo de Peluso, também criticado por tentar desqualificar os argumentos dos colegas.

Um observador das sessões do Supremo Tribunal Federal lembrou: "Nem o ministro Nelson Jobim atravessava tanto a sessão." E como definem os próprios ministros, que estiveram no STF durante a presidência de Jobim, "ele era um trator".

Imitação. Alguns ministros passaram agora a caçoar do estilo Peluso. A portas fechadas, imitam o colega para criticá-lo. Quando defendem sua tese, às vezes de forma ríspida, viram e reviram as mãos. Quando elevam o tom, afinam a voz.

Mas o que incomoda alguns ministros é a condução das sessões. Eles reclamam que Peluso, com certa frequência, corta a palavra e interrompe os debates.

Na sessão de quarta-feira, Ricardo Lewandowski foi um dos alvos. "Ministro, nem me venha com esse argumento", disse, rebatendo a fala que contestava sua alegação.

Para tentar derrubar os argumentos, citou dois julgamentos antigos dos quais Lewandowski teria participado. Os casos, porém, foram julgados antes de ele ser nomeado para o Supremo.

Em outro momento, quando Carlos Ayres Britto se valeu de metáforas para qualificar a estratégia de Peluso, levou o plenário ao riso. "Com todo o respeito está me parecendo um salto triplo carpado hermenêutico o que estamos fazendo aqui", afirmou.

Peluso reagiu. "É muito interessante do ponto de vista publicitário, mas do ponto de vista jurídico isso não diz nada, não diz coisa nenhuma."

Na segunda parte do julgamento, ontem, depois de sofrer críticas dos colegas, Peluso baixou o tom da sessão e pouco interferiu no julgamento.

Conflito. Ele já teve problemas no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por seu estilo de presidir as sessões e de negociar suas propostas. Os conselheiros abriram guerra com Peluso até ele ter de exonerar um de seus braços direitos, um amigo pessoal que levou para trabalhar em seu gabinete.

É um estilo que um amigo do presidente do tribunal assim define: "O Peluso é juiz há 40 anos e está acostumado a mandar e ser obedecido. Não vai mudar." / F.R. e M.G.

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