Amigos de Eloá rezavam à espera de um milagre

Às 17 horas, neurocirurgiã já havia anunciado que a adolescente estava em coma irreversível

Valéria França e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2008 | 01h00

Antes mesmo de ser anunciada morte cerebral da garota Eloá, amigos, parentes e principalmente os médicos já se preparavam para o pior. Na entrada do pronto-socorro do Centro Hospitalar Municipal de Santo André, um grupo de 20 colegas de Eloá rezava na esperança de um milagre. No estacionamento do hospital, uma equipe de captação de órgãos do Instituto Dante Pazzanese esperava a segunda bateria de exames neurológicos, marcada para as 23h30. Foram esses exames que confirmaram o diagnóstico sobre o estado da adolescente."Caso não haja morte cerebral, Eloá ficará em estado vegetativo", anunciara às 17 horas, Grace Mary Lídia, uma das três neurocirurgiãs que operaram a adolescente. Eloá chegou ao hospital já em estado crítico. "Estava inconsciente e havia perdido massa encefálica", disse Rosa Maria Aguiar, diretora do hospital municipal. Com a tomografia, os médicos puderam avaliar a trajetória da bala: o projétil perfurou a testa, do lado direito, e se instalou na nuca, do lado esquerdo. Ela foi submetida a uma craniotomia, processo cirúrgico usado para aliviar a pressão intracraniana, provocado pelo edema cerebral, originado pela passagem do projétil. "O problema não é a bala em si, mas o calor que emite, forte suficiente para lesionar áreas próximas", explicou Grace. Na Escala Glasgow, usada para medir o grau de coma, que vai de 3 a 15, do pior para o melhor estado, Eloá foi classificada como nível 4, logo após duas horas e meia de cirurgia. Ontem de manhã, seu estado piorou ainda mais, atingindo o grau 3 da mesma escala. Os médicos suspenderam a sedação, usada para diminuir a atividade cerebral. Trata-se de um procedimento padrão em situações desse tipo. A sedação é retirada para avaliar se os reflexos mais profundos do paciente ainda estão preservados - algo que só pode ser medido depois de passado o efeito da sedação. E para isso são realizadas duas baterias de exames. Seis horas depois da suspensão do medicamento, às 16h30, Eloá passou pelos primeiros testes clínicos neurológicos. Sem divulgar os resultados, Grace disse que daria o diagnóstico oficial depois da segunda sessão, pouco antes da meia-noite. "Pupila dilatada com a incidência de luz e incapacidade de respirar sem ventilação são alguns sinais de morte encefálica", explica Jorge Pagura, neurocirurgião do Hospital Albert Einstein, que operou o ator Gérson Brenner, em 1997, vítima de um tiro que também atravessou a cabeça, mas atingiu só o lado esquerdo da cabeça. "Apenas um de cada dez pacientes vítimas de perfurações desse tipo sobrevive." NAYARA Nayara, de 15 anos - que voltou ao cativeiro na quinta-feira, por exigência de Alves. Ela também foi ferida, mas passa bem. Antes de ser atingida por um tiro, Nayara se protegeu, colocando a mão direita sobre o lado direito do rosto. A bala perfurou a mão, atravessou a pele da face, na altura da narina direita, se alojando na arcada dentária superior esquerda. "Nayara chegou ao hospital conversando e cooperou na cirurgia", disse Ricardo Modes, cirurgião buco-maxilo-facial que operou Nayara. A bala retirada de sua boca era de calibre 32. Uma tomografia realizada ontem mostrou que não havia outros fragmentos na arcada. De acordo com a Polícia Científica, que foi ao hospital, no corpo das meninas não havia marcas de agressão, além dos tiros.

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