Anac só tem um diretor do setor aéreo

Outras três diretorias e a presidência da agência são ocupadas por apadrinhados políticos e aliados do Planalto

Ana Paula Scinocca e Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2026 | 00h00

Apenas uma das cinco diretorias da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) é ocupada por profissionais do setor. Os outros três diretores e o presidente, Milton Zuanazzi, são apadrinhados políticos de ministros e aliados do Palácio do Planalto e foram escolhidos também para atender ao lobby das companhias aéreas. Como na Infraero, os postos-chave da agência criada no governo Lula para regular o setor, fiscalizar empresas e proteger os usuários foram loteados. Com o comando da Anac nas mãos de um economista, uma advogada, um ex-deputado, um engenheiro mecânico e só um aviador, o setor enfrenta sua maior crise depois de ter crescimento médio de quase 12% ao ano e um lucro que saltou da faixa dos 3% para mais de 15%. Dez meses e 350 mortos depois, esse loteamento é apontado como fator agravante da crise. Não é por acaso que Leur Lomanto, sete vezes deputado federal, foi o único diretor aprovado por unanimidade no Senado. Foi ele que, ainda deputado, relatou o projeto de lei que criou a Anac, negociado com as empresas aéreas. Rejeitado pelas urnas em 2002, Lomanto foi acomodado na assessoria parlamentar da Infraero e, de lá, transferido para a Anac. Desde que assumiu, seu feito de maior repercussão foi a festa que promoveu no casamento de sua filha, em março. O evento, que teve a participação da cúpula do setor aéreo, ocorreu no mesmo dia do motim dos controladores de vôo. Ficou conhecido como o Baile do Apagão. Zuanazzi foi secretário de Turismo do Rio Grande do Sul. Sua maior credencial para garantir a presidência da Anac foi a amizade com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, antiga companheira de partido e de secretariado. A relação é ainda anterior ao PT: os dois militaram juntos no PDT. O ex-ministro José Dirceu, antecessor de Dilma, garantiu uma diretoria para sua ex-assessora Denise Abreu. Ela apareceu nos jornais em duas ocasiões: a primeira, na festa de Lomanto. A outra foi na semana passada, três dias após o acidente da TAM. Denise, Lomanto, Zuanazzi e o diretor José Barat foram condecorados pelo comandante da Aeronáutica, Juniti Saito. O único diretor não homenageado é justamente Jorge Luiz Brito Velozo, coronel aviador especialista em segurança de vôo e foi indicado pela Aeronáutica para a vaga. Sua escolha também agradou as companhias. ?NA BERLINDA? Um especialista do setor aéreo que acompanha a Anac desde o início não tem dúvidas de que, com a troca no Ministério da Defesa, "a agência, que já nasceu torta, entrou na berlinda". Ele diz que, antes de a Anac sair do papel, ainda no governo Fernando Henrique (1995-2002), Lomanto já estava escolhido como diretor, com a bênção do Planalto, do PMDB, do então PFL (que virou o DEM) e das companhias aéreas. Até a Força Aérea acatou a escolha. "A Anac só não foi criada no governo tucano porque o Planalto considerou o relatório de Lomanto muito favorável às empresas e decidiu engavetá-la", diz. A idéia de substituir o Departamento de Aviação Civil (DAC) por uma estrutura mais moderna e eficiente só vingou no governo do PT, mas a avaliação é de que prevaleceu o "espírito favorável" às companhias. A questão técnica foi relegada a tal ponto que o DAC não foi procurado pela nova agência para fazer a transição.

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