REUTERS/Adriano Machado
REUTERS/Adriano Machado

Análise: A marca incorreta do inevitável

Tragédia é tudo que nos ocorre e que não poderíamos impedir

Mario Sergio Cortella *, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2019 | 03h00

A expressão “tragédia”, usada em situações como essa e em outros desastres resultantes da negligência ou omissão humana, não deveria ser tão elástica. Do ponto de vista conceitual, tragédia é tudo que nos ocorre e que não poderíamos impedir, por estar além das forças humanas: tsunami, terremoto ou tufão. Na Filosofia, tudo o que poderia ter sido evitado ou resultou de descaso ou equívoco humano é um “drama”, e não tragédia. Um terremoto é trágico, mas a ausência de meios de alerta e proteção em algumas áreas do planeta é dramática; a seca inclemente ou o deserto é uma tragédia, mas a fome e a sede para alguns é dramática... 

A ideia de tragédia neste caso traz a marca incorreta do inevitável, reduzindo as responsabilidades de quem, de fato, as tem. A sequência dramática - Brumadinho, episódios de feminicídio e o Flamengo - resulta de um adensamento de situações anteriores. Por se originarem em descasos e descuidos, poderiam eclodir de modo mais imediato, e, por isso, estão mesmo acontecendo, mais por ser possibilidade causal, marcada por coincidências negativas, do que uma fatalidade sem autoria.

* É FILÓSOFO E EDUCADOR

 

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