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Análise: Ao partir, d. Paulo deixa sua última grande lição

A perda do cardeal deixa evidente como uma vida dedicada aos pobres e aos perseguidos pode ser uma luz na vida das pessoas e na sociedade

Francisco Borba Ribeiro Neto *, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2016 | 21h37

A comoção popular com a morte de dom Paulo Evaristo Arns dá à Igreja Católica um sinal de qual caminho seguir: o do amor e comprometimento com os mais sofridos e injustiçados. A perda de d. Paulo deixa evidente como uma vida dedicada aos pobres e aos perseguidos pode ser uma luz na vida das pessoas e na sociedade. Foi impressionante a adesão do povo aos ritos do funeral dele.

Nesse sentido, a figura de d. Paulo fica mais forte agora do que nos seus últimos anos de vida. Com sua morte, ele torna-se um símbolo, uma memória a ser cultivada por cada um. A personalidade dele passa a ser ainda mais inspiradora. Um exemplo que serve para os políticos brasileiros, para os pastores de todas as igrejas do Brasil e do mundo, para todas as gerações. É a comprovação de que aquele tipo humano que ele encarnou é o que faz diferença na sociedade atual.

Existe hoje, de modo geral, não só na Igreja Católica, a falta de grandes lideranças nos moldes de dom Paulo. Não é que elas não existam, mas elas são relativamente raras em comparação com outras épocas. Isso acontece, basicamente, porque um líder não é apenas aquele que diz o que os outros devem fazer. O líder é aquele que canaliza um sentimento difuso de um grupo social, dando-lhe sentido político. Em um momento em que a sociedade está muito fragmentada e que os fenômenos sociais são efêmeros, é difícil construir a figura do líder. 

Nesse contexto de falta de lideranças, pessoas como d. Paulo fazem falta porque deixam a sociedade com a impressão de que não existe para onde olhar. Sempre muito citado por sua capacidade de gerar esperança nas pessoas, ele é considerado uma unanimidade. Não que não houvesse posicionamentos contrários aos dele, porém, a força do seu trabalho e dedicação é tão grande que os críticos não levam adiante suas posições. Com a ausência dele, essa capacidade de gerar esperança torna-se mais frágil.

Providencialmente, temos hoje um papa que responde em grande parte àquela função social e eclesial que d. Paulo desempenhou. Assim, a perda desse líder é um estímulo para que a Igreja Católica e toda a comunidade cristã assumam o amor ao próximo como tarefa social. A morte dele deixou evidente que o amor ao pobre e ao que sofre é o testemunho mais forte que o cristianismo pode dar hoje ao mundo.

* É COORDENADOR DO NÚCLEO FÉ E CULTURA DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA (PUC-SP)

 

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