Edison Veiga/Estadão
Edison Veiga/Estadão

Análise: Canonização de Irmã Dulce é o triunfo da bondade

Numa sociedade que busca maior reconhecimento para a mulher, religiosa bem representa o protagonismo feminino e a capacidade de liderar e criar num ambiente hostil

Francisco Borba Ribeiro Neto, Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

13 de outubro de 2019 | 16h00

Muitos querem ver as canonizações apenas como uma estratégia da Igreja para reforçar sua influência social. Mas, transcendendo qualquer cálculo, a Bahia, religiosa e sincrética, se entregou hoje a Santa Dulce dos Pobres. Ela não é apenas uma santa para os católicos, é para todos – como, aliás, devem ser todos os santos. Como explicar tal devoção?

Numa sociedade que busca maior reconhecimento para a mulher, ela bem representa o protagonismo feminino, a capacidade de liderar e criar num ambiente hostil. Mas, paradoxalmente, seu exemplo vai contra aquilo que as pessoas parecem buscar e valorizar, em nossa mentalidade atual, marcada pelo individualismo, pelo materialismo e pela ânsia por sucesso.  Não numa longínqua Idade Média, mas em pleno século XX, viveu para os pobres, com abnegação, humildade e sacrifício.

Sua biografia se assemelha a Madre Teresa de Calcutá. Seus processos, conduzidos ao longo dos pontificados de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco, estão entre as canonizações mais rápidas da história, porque “voz do povo, voz de Deus”. Santos e santas que se dedicam aos pobres e aos doentes sempre se destacam no coração das pessoas.

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Como Francisco de Assis, o santo dos pobres que deu nome ao papa, num mundo que propõe a riqueza e o glamour, a santa baiana mostrou uma outra beleza, cativante e desconcertante. Poucos, talvez, queiram abraçar tal beleza, mas todos se sentem abraçados por ela. Em tempos de polarização e ressentimento, a raiva pode conquistar um poder transitório, mas Santa Dulce mostra que o amor e a bondade permanecem no tempo, fortalecem um povo e abrem o caminho da esperança.

O grande sentido de sua canonização, para os católicos e para o mundo, é o triunfo da bondade. Não porque foi canonizada, mas sim pelo amplo reconhecimento popular e pelos sinais de afeto que tem recebido. Bento XVI escreveu que jamais haveria uma sociedade tão perfeita que tornasse o amor desnecessário. Essa é a mensagem que essa canonização deixa para todos.

 

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