Osservatore Romano/Reuters
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Análise: Crítica de Bento XVI não significa conflito entre os papas

Pensar o livro 'Das profundezas dos nossos corações' como instrumento de pressão sobre o papa atual é não entender a personalidade e a lógica interna que norteia a ambos

Da Redação, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 18h51

Papa Francisco não é homem que se dobra a pressões. Ao contrário, elas parecem fortalecer suas convicções. Bento XVI demonstrou, ao longo de sua carreira como acadêmico, membro da Cúria e papa, apreciar a humildade e a obediência. Pensar seu livro Das profundezas dos nossos corações, escrito com o cardeal Robert Sarah, como instrumento de pressão sobre o papa atual é não entender a personalidade e a lógica interna que norteia a ambos.

O celibato sacerdotal é complexo. Ainda em janeiro de 2019, Francisco disse que o considera “uma dádiva para a Igreja”, e não desejaria mudá-lo. Por outro lado, muitas Igrejas Católicas de rito oriental têm a opção de padres casados, sem que isso elimine a existência (e até a proeminência) dos celibatários.

As questões levantadas pelo Sínodo da Amazônia, onde ressurgiu o tema, também são complexas e muito particulares. Por exemplo, Gerard Müller, cardeal responsável pela publicação das obras completas de Josef Ratzinger (o papa Bento XVI) foi um duro crítico do Documento de Trabalho inicial (diríamos, um conservador), mas foi também defensor de Gustavo Gutierrez, pai da Teologia da Libertação, no Vaticano (portanto, um progressista).

Pensar a relação entre os papas em termos de grupos de pressão fomenta interesses partidários e repercussão na mídia, mas não ajuda a entender a lógica interna da Igreja Católica. Ao menos nesse sentido, o clima de diálogo e encontro entre eles, no filme Dois papas, de Fernando Meirelles, está bem mais próximo da realidade. / FRANCISCO BORBA NETO É COORDENADOR DO NÚCLEO DE FÉ E CULTURA DA PONTÍFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO (PUC-SP)

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