AFP / FILIPPO MONTEFORTE
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Análise: De dez confissões que atendo, quatro envolvem aborto

'A decisão do papa Francisco deve ser vista mais como um ato de misericórdia do que como um ato progressista'

Padre José Arnaldo Juliano *, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2016 | 03h00

A decisão do papa Francisco, de estender a todos nós, padres, a autorização para que perdoemos o pecado do aborto, deve ser vista mais como um ato de misericórdia do que como um ato progressista. Até agora, somente os bispos e alguns confessores por eles designados podiam perdoar esse pecado.

Isso trazia uma grande dificuldade, porque sabemos muito bem que muitas mulheres abortam por decisão dos parceiros ou da família e viviam a angústia de não terem acesso ao perdão. É preciso registrar que o aborto é um crime hediondo e, dada essa gravidade, a Igreja sempre condenou fortemente essa prática. Mas essas mulheres, que muitas vezes se arrependem sinceramente do seu ato, vivem a angústia de uma culpa muito forte e - frequentemente com problemas psicológicos graves - nos procuram com a esperança de receber o perdão de Deus.

Hoje, de dez confissões que atendo, quatro relacionadas ao aborto. Como o padre deveria fazer? Deixá-las desamparadas? Dizer para procurar o bispo? A decisão não é decorrente de um suposto progressismo do papa Francisco - que está apenas cumprindo o que determina o Concílio Vaticano II -, mas de um ato de misericórdia ligado a disposição da Igreja que nos orienta a acolher aqueles que realmente precisam - neste caso, as mulheres.

* É PROFESSOR DE TEOLOGIA E CAPELÃO DO MOSTEIRO DA LUZ DE SÃO PAULO

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