A intervenção federal no Rio de Janeiro, que coloca as polícias estaduais sob o comando de um general, é um passo largo no projeto de militarização da segurança pública, construído sob a ilusão de que o braço forte do Exército nos salvará. A recente mudança legislativa para transferir à Justiça Militar o julgamento de homicídios cometidos por militares foi um presságio.

Atribuir ao Exército essa missão, além de desvio de função, é colocá-lo frente a uma missão impossível, visto que carece de doutrina e ferramentas para lutar contra o crime organizado, começando pela capacidade de investigar. Por outro lado, muitos policiais fluminenses são contrários a essa subordinação e o Exército não deve esperar deles cooperação ativa.
Na prática, a intervenção é uma confissão não só da incapacidade do governo estadual de prover segurança, mas também do fracasso das intervenções anteriores do próprio Exército no Rio. Com grande ousadia, o presidente Temer prometeu "medidas duras" que vão "derrotar" o crime organizado e retomar o controle das cadeias e das praças. De fato, alguém que consegue sobreviver a baixíssimos níveis de aprovação e a graves acusações de corrupção tem direito a sonhar com poderes mágicos, mas até a magia tem limites.
Dessa forma, o governo ocupa em parte o espaço político da extrema direita em ano eleitoral, cujos candidatos propõem intervenções militares e "medidas duras", esvaziando parcialmente seu discurso. Temer tem razão ao dizer que o crime organizado é uma metástase no Rio, mas esquece de mencionar que a metástase infiltrou setores do Executivo, do Legislativo e do Judiciário e que o partido dele, o MDB, tem tido papel destacado nesta infiltração. Obviamente, os canhões do Exército são inócuos contra este crime, o verdadeiramente organizado.
*Professor da UERJ e membro do Laboratório de Análise da Violência