WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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Análise: Desenvolver competências contra as fake news é urgente

Crianças têm acesso às informações e às tecnologias muito cedo e as escolas estão se deparando com a necessidade incluir esse tema no currículo

Mônica Gardelli Franco *, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 03h00

Dois fenômenos de comunicação que ocorreram no século passado influenciaram muito a forma como a nossa sociedade se relaciona. A primeira delas foi a televisão que, a partir da década de 1960, iniciou um boom de distribuição de conteúdo. 

Nessa época, o acesso à educação básica no Brasil ainda estava longe de ser universalizado. Portanto, essa mudança na comunicação e a distribuição de conteúdo e informação não era uma prioridade das políticas educacionais. Conforme a televisão ganha espaço, há uma preocupação em preparar as pessoas que produziam aquele conteúdo. 

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No final das décadas de 1980 e 1990, ocorre o segundo fenômeno: o surgimento da internet. Ele muda a lógica existente de que haveria um detentor do conhecimento e do poder de produzir e distribuir conteúdo. Com a internet, todo mundo passa a ter esse potencial. Quem trabalhava na área da educação ficou muito eufórico com essa possibilidade de democratização do conhecimento, mas alguns problemas não foram vistos naquela época. 

Quando se inicia essa propulsão de pessoas produzindo conhecimento, a escola perde o controle. Antes ela sabia de onde vinham as informações confiáveis, dos livros didáticos, de enciclopédias, dos artigos científicos. Com o advento da tecnologia, houve um empoderamento das pessoas para produzirem e distribuírem conteúdo. O que não houve foi a devida formação crítica dessas pessoas.

Agora, as crianças têm acesso às informações e às tecnologias muito cedo e as escolas estão se deparando com a necessidade incluir esse tema no currículo, com o intuito de formar cidadãos capazes de produzir, consumir e distribuir conteúdos. Precisamos preparar o estudante para que ele seja capaz de ler e interpretar o mundo de maneira crítica em todas as suas formas de comunicação. Para isso, ele precisa ter acesso a conhecimentos e recursos para que possa interpretar, analisar, investigar. Vivemos um momento sensível em que o desenvolvimento dessas competências é mais do que importante, é urgente. 

As fake news não se restringem apenas ao mundo político. Elas estão em todo tipo de conhecimento, trazem informações falsas sobre ciências, saúde, educação. Quantas pessoas já não foram prejudicadas por tentar uma suposta cura para o câncer que leram em algum canto da internet?

* Superintendente do Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Mestre e doutora na área de currículo pela PUC-SP.

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