Análise: Facções e violência crescem onde o Estado é ausente

Detentores do poder no Brasil agravam cenário ao persistir em políticas instintivas do encarceramento em massa, rotina de mortes pela polícia e também de policiais

Graham Denyer Willis*, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2017 | 03h00

Gangues e o crime organizado estabelecem ordem por meio de regras em diferentes prisões, cidades e regiões. Na América Latina, não há erro em afirmar que, nos espaços onde gangues e o crime organizado se tornaram proeminentes, esses são também espaços que historicamente o investimento esteve ausente. Assim como pessoas foram deixadas para construírem as próprias casas, providenciarem estruturas de água e esgoto e coleta do lixo, elas também foram deixadas para construírem os próprios mecanismos de segurança. É lógico que esses mecanismos não gostam da polícia que tantos outros reconhecem.

Algumas vezes esses mecanismos e visões de segurança estão em conflito com outros. Quando isso é agudo, há muita violência e sofrimento. Quando gangues e grupos armados não estão brigando pelo território ou produto – o que implica dizer que uma série de regras prevalece –, há geralmente menos violência. Mas essas regras raramente são estáveis. Há momentos de violência, instabilidade de regras, contestações de território que abalam a tênue paz que possa existir.  

Muito disso é entrelaçado com o Estado também por meio das políticas penais, policiamento e o histórico abandono de certas populações. Detentores do poder no Brasil agravam isso ao persistir em políticas instintivas do encarceramento em massa, rotina de mortes pela polícia, enquanto também permitindo comumente mortes de policiais. É alguma surpresa que policiais não são mortos nas partes centrais ou ricas da cidade? Isso seria um grande problema. Na verdade, a maioria é morta longe dos espaços que importam politicamente.

A violência policial também é um problema que nunca desapareceu neste País. Mas violência policial não é sobre atos individuais. Algumas polícias se tornaram particularmente violentas. E elas são politicamente úteis como tal. É sobre um sistema que continua a legitimar essa violência em nome da manutenção da ordem. 

Aqueles que podem alterar a política são compelidos a fazê-lo quando a violência começa a afetá-los. Esse é o momento da “crise”. Hoje, muito da preocupação sobre policiamento violento e crime organizado está focado em atos de violência de pequenos grupos de cada parte. Mas o que constantemente é ignorado é a maior parcela de responsabilidade que tem permitido essa situação avançar. Por que lideranças políticas continuam a permitir que policiais sejam mortos? Por que eles continuam a encher prisões, adicionando combustível ao fogo do Primeiro Comando da Capital (PCC)?

*É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ESTUDOS INTERNACIONAIS DA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE

 

Mais conteúdo sobre:
Segurança Pública Crime Organizado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.