EFE/EPA/GIUSEPPE LAMI
EFE/EPA/GIUSEPPE LAMI

Análise: Francisco já havia dito que não gostaria de alterar o celibato para sacerdotes

Para Borba, real força do texto final do papa, Querida Amazônia, está na perspectiva socioambiental, defendendo os ecossistemas amazônicos

Francisco Borba Ribeiro Neto, Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

12 de fevereiro de 2020 | 16h00

No Brasil, durante o Sínodo sobre a Amazônia, discutiu-se muito a ordenação de homens casados e as eventuais ameaças à soberania nacional. Mas a real força do texto final do papa,  Querida Amazônia, está na perspectiva socioambiental, defendendo os ecossistemas amazônicos, seu papel para o equilíbrio do planeta, e o respeito às culturas locais, bem como a íntima relação entre espiritual e social.

A ordenação de homens casados não aparece no documento. Não por pressão externa. Francisco já havia dito inúmeras vezes que não gostaria de alterar a disciplina do celibato para sacerdotes. Sua solução para a falta de sacerdotes na região, consoante com sua posição sobre o tema, é uma espiritualidade mais viva, maior atuação dos leigos e colaboração missionária de outras partes da América e do mundo.

O papa também não questiona a soberania dos países amazônicos. Pelo contrário, ataca propostas de internacionalização da região, às quais contrapõe a necessidade de uma atuação responsável dos governos. Contudo, deixa claro seu apoio à ação de organismos multinacionais e organizações sociais. Segue, claramente, as indicações da doutrina social da Igreja: a solidariedade é sempre a melhor resposta para os problemas, pois respeita a autonomia e a liberdade, mas dá apoio concreto. Governos responsáveis e comunidade internacional solidária não entram em conflito, mas somam esforços para o bem comum.

Sobre o documento, algo interessante é que é o primeiro texto do Vaticano cujo título original não está em latim. Mesmo as versões em inglês, alemão e francês, por exemplo, trazem Querida Amazônia, que é uma expressão que pode ser espanhol ou português - as línguas oficiais dos países amazônicos -, mas não latim, língua oficial da igreja. Simbolicamente, é um fato muito importante.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.