André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Governo não entende a dimensão das crises que tem enfrentado

Após novas mortes em presídios, Ministério da Justiça marca reunião para oito dias depois, mostrando que o conceito de 'medidas imediatas' é mais elástico

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2017 | 05h00

O governo federal tem enorme dificuldade para entender a dimensão das crises que enfrenta. No caso dos massacres em presídios não foi diferente. Da inexplicável demora do presidente Michel Temer em se manifestar sobre o assunto – e quando o fez foi de maneira desastrosa – até as poucas providências tomadas, o governo parece não compreender a gravidade da situação. Pior: segue errando no caso.

O exemplo mais recente aconteceu neste domingo, 8. No mesmo dia em que eram reveladas novas mortes em outro presídio de Manaus, o Ministério da Justiça divulgou nota oficial para anunciar a realização de uma reunião com os secretários estaduais de Segurança Pública de todo o País para discussão de “medidas imediatas para a crise do sistema penitenciário”. Data da reunião? Só em 17 de janeiro. Ou seja, daqui a oito dias, mostrando que o conceito de “medidas imediatas” é mais elástico dentro do governo.

Inexplicavelmente, Temer segue sem aparecer em Manaus ou Boa Vista para ver a crise de perto. Em compensação, vai para Esteio, no Rio Grande do Sul, participar de uma prosaica entrega de ambulâncias. Em seguida, pode viajar para Lisboa para acompanhar o funeral de Mário Soares.

Não é a primeira vez que o governo se desgasta pela demora para resolver uma crise. Aconteceu a mesma coisa no episódio em que o então ministro da Cultura Marcelo Calero acusou Geddel Vieira Lima (Casa Civil) de pressioná-lo para liberar a construção de um prédio onde tinha comprado apartamento. O governo passou uma semana sangrando em praça pública antes de fazer o óbvio, que era convencer Geddel a se demitir e encerrar a crise.

No caso dos presídios, o governo errou ao tentar restringir o caso à esfera estadual, quando surgiu a informação das mortes em Manaus. Como tinha liberado para os Estados cerca de R$ 1,1 bilhão, nos últimos dias do ano, por meio do Fundo Penitenciário, o governo quis mostrar que fizera sua parte repassando recursos para que os governadores cuidassem de seus presídios.

Por causa disso, também evitou enviar a Força Nacional para os locais afetados pela crise nos presídios.

O momento não poderia ser pior para o governo lidar com um problema desse porte. O plano do presidente era aproveitar o recesso de janeiro do Congresso e do Judiciário para organizar uma agenda positiva e tentar recuperar sua fragilizada imagem. As mortes nos presídios demoliram a estratégia e as falhas nas respostas dadas deixaram o governo mais fraco do que já estava.

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