Polícia Federal
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Análise: Lavagem de dinheiro de facções está ligada ao aumento da atividade criminosa

Procurador do MP-SP explica que lavagem é sinal de organização estruturada e é facilitada pela tecnologia atual. Operação da PF nesta segunda mirou atuação de grupo em 19 Estados e no Distrito Federal

Márcio Sérgio Christino*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 05h00

A necessidade de realizar a lavagem de dinheiro surge a partir do momento em que a organização criminosa começa a receber um volume muito grande de recursos, como consequência das atividades que desenvolve ilegalmente, como o tráfico de drogas. Então, isso vai estar presente sempre que o crime deixar de ser casual ou pessoal e assumir uma característica estruturada. A lavagem está ligada ao aumento da atividade criminosa. 

O que está acontecendo agora é que, com a tecnologia, o dinheiro se movimenta de maneira muito mais fácil do que era antes. O recurso que está aqui pode ser enviado para outro Estado, subdividido em empresas e reenviado para outra localidade, dificultando o rastreio. Então, a tecnologia é um fator essencial para realização da lavagem. Não existe mais o cenário retratado por filmes americanos antigos ou o que acontecia com Pablo Escobar de se movimentar quantias enormes de dinheiro de maneira escondida, enterrar o dinheiro no chão. O aparelho celular faz o dinheiro sumir e aparecer em outro lugar instantaneamente. 

E o Estado está sempre atrás na corrida contra os novos meios desenvolvidos pelos criminosos. É natural que seja assim. Eles mudam e precisamos ir atrás de novas armas, não de fogo, mas de instrumentos tecnológicos para alcançá-los. E isso consome recursos e é marcado pela dificuldade. 

Isso se torna claro quando notamos que a atividade investigativa é a única em que o Estado desenvolve contra alguém, e não a favor. Explicando: a Saúde é oferecida em prol das pessoas, assim como a Educação. Quando envolve um crime, o Estado está no lado contrário e há muito mais dificuldade em se desenvolver uma ação eficaz. 

Mas, assim como o combate à lavagem de dinheiro é importante no combate às facções criminosas, penso que isso não pode ser desenvolvido sem atenção simultânea à base dos esquemas. Se o esforço investigativo for dedicado ao topo, a base sempre vai continuar arrecadando. Se o topo for esquecido, o dinheiro sempre vai circular. É necessário, então, uma abordagem em todas as frentes porque aquela ponta que sobrar livre nessa história vai fazer com que a organização criminosa cresça novamente. 

*É PROCURADOR DE JUSTIÇA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO E AUTOR DO LIVRO LAÇOS DE SANGUE, A HISTÓRIA SECRETA DO PCC

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