Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

ANÁLISE: Museu Nacional é retrato da falta de investimento em acervos históricos

'Será que é o momento de o País continuar apostando em novidade, em novos equipamentos, ou dar um basta em tudo isso e olharmos para o que já temos?', questiona ex-diretor técnico do Museu da Língua Portuguesa

Antonio Carlos de Moraes Sartini*, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 13h44

São 200 anos de história que se foram em algumas horas. O incêndio do Museu Nacional, no Rio, reflete bem a situação do País, que vai se acumulando há décadas. São poucos os investimentos na área de cultura e, ao analisar o que se estava gastando em manutenção, se tem uma clara ideia dos riscos a que estava exposto. 

Existem diferenças sensíveis entre o que ocorreu ontem e o que ocorreu Museu da Língua Portuguesa, em 2015. No Museu da Língua Portuguesa, não se perdeu acervo, se tratava de patrimônio imaterial digitalizado e preservado, a perda foi da vida humana, do bombeiro morto no combate ao incêndio, e do patrimônio histórico. Já o incêndio do Museu Nacional é um problema gravíssimo, pela perda de um dos maiores acervos do País, constituídos ao longo de 200 anos. 

O que ocorreu traz uma questão de políticas públicas. A gente vê uma proliferação de novos equipamentos, de museus que são verdadeiros shows, com tecnologias que demandam muitos recursos, que o poder público e a iniciativa privada poderiam estar direcionando aos museus que já existem. 

Precisamos refletir: será que é o momento de o País continuar apostando em novidade, em novos equipamentos, ou dar um basta em tudo isso e olharmos para o que já temos? De pensar nos riscos expostos, de como poderíamos cuidar melhor deles. Isso não só nos museus, mas em todas as áreas, como é o caso do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), que é do governo federal e está fechado há anos. 

No Brasil inteiro houve, nos últimos anos, o surgimento de novos equipamentos. No caso do Rio, isso fica emblemático porque foi um investimento enorme nos últimos, como, por exemplo, no Museu do Amanhã. Mas, ao mesmo tempo, se esqueceu do Museu Nacional. A gente sabe que muitos desses equipamentos culturais ou quase a totalidade deles são feitos através de incentivo, de renúncia fiscal, que nada mais é que recurso público.

Poderes públicos, nas três esferas (federal, estadual e municipal) precisam olhar para seus equipamentos e dar um norte para a iniciativa privada sobre onde interessa que o recurso seja investido. A iniciativa privada tem investido muito em cultura através da renúncia fiscal, em equipamentos muito interessantes e que dão maior visibilidade. Não seria um momento de dar uma parada e repensar esse conjunto de políticas públicas e para onde levar esse recurso?"

É importante haver um diálogo constante entre as esferas de poder ao se pensar nos investimentos de cultura. O Museu Nacional está ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas poderia e deveria contar com recursos da Prefeitura e do Estado. Não podemos mais pensar isoladamente. Enquanto uma esfera de poder não tem recursos, outra investe milhões em novas ações.

* diretor técnico do Museu da Língua Portuguesa entre 2006 e 2016

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.