Bruna Prado/AP
Bruna Prado/AP

Análise: Não estamos apenas estagnados no IDH, estamos atrofiando

Desigualdade excessiva corrói de maneira silenciosa a vida pública e as instituições do País, diz ex-economista sênior do PNUD

Flavio Comim*, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2020 | 08h14

Quem ficar só com a manchete não vai entender o que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) está dizendo sobre o Brasil este ano. Não estamos apenas estagnados na posição 84º do ranking do IDH. Passamos por um processo de atrofia do nosso desenvolvimento humano que, para ser devidamente caracterizado, deve levar em consideração alguns pontos.

Primeiro, é importante entender que a cada ano o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) recalcula o IDH do ano anterior com base em informações atualizadas para medir a nova variação. Nessa revisão, o Brasil não estava na posição 79º do ranking, mas na 84º, onde continua este ano. Isso não invalida a conclusão, com base no conhecimento que temos hoje, de que estamos pior em cinco posições no nosso desenvolvimento humano do que achávamos que estávamos no ano passado.

Segundo: vários países ultrapassaram o Brasil no ranking do IDH como a Colômbia, a Ucrânia, a Macedônia do Norte e o Peru, pese o contexto de que nossos vizinhos mais próximos como a Argentina e o Uruguai, ou mais distantes como México e Cuba estão todos nominalmente duas posições acima do que estavam no ranking do ano passado. As evidências sugerem que o desenvolvimento humano do Brasil está atrofiado em relação a alguns países de referência da região.

Terceiro, quando corrigimos o IDH pela desigualdade, verificamos que as perdas resultantes da desigualdade de renda aumentaram significativamente em relação ao que tínhamos nas duas últimas edições do índice, passando de -36.7% para -41%. O que quer dizer isso? Que cada vez mais a dimensão renda do IDH representa a renda dos ricos que a dos pobres. Isso não deveria surpreender, pois nesse último ano a parcela de renda dos 40% mais pobres no país, mesmo sendo muito baixa, caiu 0.2% enquanto a dos 10% mais ricos aumentou em 0.6%, situando-se em 42.5% da renda nacional, uma das mais altas do planeta.

Essa desigualdade excessiva corrói de maneira silenciosa a vida pública e as instituições do País, naturalizando nosso atraso social e impedindo a busca de soluções efetivas para o desenvolvimento humano.

Vale notar que comparado com a média de um país de desenvolvimento humano muito alto, vivemos quase quatro anos a menos, estudamos quase um ano a menos, temos um nível educacional de nossa população adulta que é a metade do que têm esses países (oito anos de estudo comparado com mais de dezesseis deles) e temos uma renda média que é menos de um terço do que possuem. Falar em estagnação é pouco para descrever o que acontece com a atrofia que vivemos.

* É ex-economista sênior do PNUD

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