GABRIELA BILO / ESTADAO
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Análise: Para a investigação do caso Lázaro, sobram perguntas que vão ficar sem resposta

Cássio Thyone, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, comenta desfecho das buscas a Lázaro Barbosa, o 'Serial Killer do DF', morto por forças policiais nesta segunda-feira em Goiás

Cássio Thyone*, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 05h00

O caso das buscas a Lázaro Barbosa é um evento que vai marcar a história das nossas polícias: pelo tempo de duração, pela repercussão midiática, pelo contingente de policiais envolvidos, entre outros fatores. E como medir a eficiência de uma operação dessas? Pelo tempo? Pelo resultado final?

Para muitos, o critério que deve ser usado é o de tempo. Sobre isso, acredito que a operação poderia ter durado menos, mas não se pode desconsiderar os fatores intrínsecos à operação. Sem dúvidas, ela foi complexa, em decorrência da dimensão da área, da dificuldade do local e também das características do próprio foragido, como habilidades e conhecimento da região. Ao mesmo tempo, a operação expôs, no micro, dificuldades que a área de segurança pública no Brasil enfrenta no macro, como questões de integração entre diferentes forças. Muitas vezes, é difícil superar vaidades e diferenças entre instituições trabalhando conjuntamente.

Por outro lado, nós poderíamos pensar que o sucesso da operação depende do desfecho. Como o Lázaro saiu de circulação, ele deixou de causar todo um problema de segurança pública em uma região. Muita gente vai falar que isso foi o melhor que poderia acontecer, mas tem a questão que envolve o fato de ele não ter sido capturado vivo. E aí existem ponderações a serem feitas. Não deixa de estar previsto que o foragido, ao reagir contra policiais armados, possa ser abatido. Porém, é preciso entender os detalhes de como essa operação aconteceu. E até agora nenhum de nós tem esses detalhes.

O melhor desfecho seria se ele estivesse vivo. Do ponto de vista investigativo, seria muito importante porque tem muitas coisas a serem esclarecidas. Mesmo no crime da chacina, cuja autoria foi praticamente fechada, ainda surgem alguns questionamentos. Será que o Lázaro matou por sua única motivação? E se por trás de alguns dos crimes que foram atribuídos ao Lázaro houver algum mandante? E se tiver outros interesses que não a motivação pessoal?

Alguns elementos que surgiram recentemente abrem perspectivas em cima desse raciocínio. Como o fato da colaboração que ele teve para continuar foragido, a ajuda dada pelo fazendeiro, por ter conseguido se alimentar, entre outros detalhes. Hoje (segunda-feira, 28), por exemplo, dava para ver que ele estava barbeado. Até a roupa e os cerca de R$ 4 mil com os quais ele foi encontrado chamam atenção.

A gente não tem muito como cravar que o desfecho seria diferente se não tivesse toda repercussão que teve. Mas a operação se tornou quase a luta do bem contra o mau. O clamor popular, junto com a ação dos policiais, fez com que o clima se tornasse algo que, sem dúvidas, iria influenciar. Dificilmente se esperaria outra coisa diferente do que aconteceu. A não ser que o próprio Lázaro, nos intervalos em que estava sendo procurado, chegasse ao local de mãos para cima e se entregasse.

É impossível imaginar que ruídos externos não cheguem à tropa. Será que o policial não estava encarando o caso como uma verdadeira caçada, como se estivesse buscando um prêmio? E a corporação que pegasse seria a premiada. Esse tipo de ruído não é bom. Nunca foi. Porque dificulta o compartilhamento, por exemplo, de informações entre inteligências da Polícia Rodoviária Federal, da Polícia Civil e da Polícia Militar.

Sobre a manifestação de Bolsonaro dizendo 'CPF cancelado', é uma postura utilizada para tentar uma reafirmação perante os próprios apoiadores do presidente. Não me surpreende, porque isso já vinha sendo usado em outras situações. Não é a primeira vez que o presidente se manifesta apoiando a ideologia do CPF cancelado. Em uma situação dessa, de maior repercussão, ele não iria fazer? Ele está sendo coerente com a linha que ele sempre seguiu. Mas por pior que seja a pessoa que morreu, não é isso que vai nos fazer sair da atual condição que vivemos, de menor civilidade, para uma condição de maior civilidade. Nós estamos longe disso.

*É perito criminal aposentado da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)

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