Análise: Plantamos hoje a desigualdade de amanhã

Ao abordar a pobreza que vai além da renda, a Unicef revela que plantamos hoje a desigualdade de amanhã. Uma criança pobre, sem acesso a serviços básicos e à educação, será o pai pobre do futuro próximo

Rafael Georges*, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 03h00

O estudo da Unicef aborda um ponto central no debate sobre desigualdades – o desenvolvimento de crianças e jovens que possibilitam a mobilidade intergeracional. Ao abordar a pobreza que vai além da renda, a Unicef revela que plantamos hoje a desigualdade de amanhã. Uma criança pobre, sem acesso a serviços básicos e à educação, será o pai pobre do futuro próximo.

O Brasil é hoje um dos dez países mais desiguais do mundo, de acordo com o Pnud (2017). Desde a Constituição Federal, começamos um processo sustentado de redução de desigualdades, que tem ocorrido por meio da inclusão da base da pirâmide na economia e nos serviços básicos oferecidos pelo Estado. Isso tem ocorrido em ritmo muito mais lento do que o desejável.

A oferta de serviços, por exemplo, avançou mais para o topo que para a base. Com exceção do acesso à energia elétrica, outros itens de infraestrutura habitacional básicos são ainda muito desigualmente distribuídos. Dados da última Pnad anual (2015) dão conta de que a cobertura de acesso a água alcança 94% para quem está entre os 5% mais ricos, mas cai para 62% quando se trata dos 5% mais pobres. A cobertura de esgoto abrange 80% dos 5% mais ricos; porém, cai para menos de 25% se observados os 5% mais pobres.

Nos anos 1990 e, principalmente, na primeira década de 2000, a redução da pobreza monetária avançou. A estabilização da moeda e os programas de transferência de renda condicionada foram muito bem-sucedidos em sacar milhões da pobreza – 28 milhões somente entre 2002 e 2015, mas se revelam extremamente frágeis em tempos de crise.

Uma análise dos números do importante estudo da Unicef revela que as crianças em condição de pobreza espelham a mesma distribuição de renda e acesso a serviços do restante da população. Isso é preocupante, considerando que, nos últimos dois anos, a pobreza cresceu no País.

E isso é ainda mais preocupante pois aponta que o desafio de superar desigualdades extremas e estruturais, que colocam negros na base da pirâmide e faz do Brasil um país com muitos pobres, continua do mesmo tamanho que há décadas atrás, sem sinais de arrefecimento. Que isto sirva de alerta para as políticas a serem propostas num novo governo.

* É cientista político e coordenador de campanhas da ONG Oxfam Brasil

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