Andreas Solaro/AFP
Andreas Solaro/AFP

'Igreja quer ser voz que desperte e transforme nosso relacionamento com a Amazônia'

Pesquisadora brasileira que vai auxiliar o sínodo como perita analisa o evento e diz que é preciso agir o mais rápido possível, pois a destruição da Amazônia e as mudanças climáticas andam mais rápido do que os cientistas

Ima Vieira*, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2019 | 16h11

Ao longo do tempo muito pouco se investiu em conhecimento, ciência e tecnologia na Amazônia. Desconsiderou-se também os saberes locais e o comprometimento dos povos da Amazônia com os destinos da região. Adotou-se um modelo econômico meramente extrativo e dominado por interesses exógenos, que tem reproduzido degradação ambiental e pobreza, com implicações ecológicas, econômicas e sociais graves.

A Amazônia é vital para a vida na Terra e fundamental para a crise climática do planeta. Portanto, agir contra as mudanças climáticas, proteger a Amazônia, importa muito nesse contexto. Esse sínodo aborda esses temas que alcançam toda a sociedade.

Na histórica encíclica Laudato Si', o papa Francisco pede ao mundo que "cuide da nossa casa comum". Ele apresenta as mudanças climáticas como "um dos principais desafios que a humanidade enfrenta em nossos dias" e alerta sobre a "destruição sem precedentes de ecossistemas, com sérias consequências para todos nós". Ele também destaca a Amazônia como rica em biodiversidade e crucial para "toda a Terra e para o futuro da humanidade" e aborda a importância de diálogo entre cientistas, sociedade civil e a Igreja.

Ao pedir um sínodo com o tema Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral, o papa demonstra preocupação pela Amazônia e seu povo.

A ciência brasileira tem a compreensão de que as transformações antrópicas podem causar possíveis colapsos na região e aponta a importância das áreas protegidas para a conservação da biodiversidade, as alternativas para usos da terra sustentáveis e o direito dos povos tradicionais de manterem suas terras e tradições.

Foram os povos indígenas que identificaram os possíveis usos de cerca de 3.000 espécies de plantas. E, para as 100 espécies mais úteis, investiram no seu manejo e cultivo. Os ribeirinhos também têm um papel muito importante nessa estratégia. Defendo uma revolução tecnológica baseada na biodiversidade amazônica, e qualquer plano para a Amazônia deve incluir os povos da floresta e os amazônidas em geral como atores centrais rumo a um novo padrão de desenvolvimento.

O Instrumento labore, principal documento a ser discutido pelos bispos no sínodo, é fruto da escuta dos povos da Amazônia e contém várias proposições para a ação da Igreja na região. Nessa construção, houve um contato intenso com a realidade amazônica, e o papa Francisco oferece uma concepção de Ecologia Integral que articula a crise ecológica com a crise social.

A ciência tem muito a colaborar, indicando o que deve ser feito para qualificar e consolidar um modelo de desenvolvimento que busque o "bem viver", uma compreensão da vida dos povos amazônicos que se caracteriza pela harmonia de relações entre a água, o território e a natureza, a vida comunitária e a cultura e as diferentes forças espirituais, e que possa eliminar muitas das mazelas socioeconômicas e socioambientais que assolam o País.

Os cientistas perceberam que a complexidade dos problemas ambientais da Amazônia exigem uma abordagem interdisciplinar e integrada para a busca de soluções. A Igreja Católica está propondo a ser uma das vozes que "despertem" e transformem o nosso relacionamento com a Amazônia, e com o planeta como um todo, em vários níveis, do pessoal ao internacional.

Eventos como o sínodo ajudam a envolver as pessoas em ação, que é o que os cientistas também estão fazendo. Agir o mais rápido possível, pois a destruição da Amazônia e as mudanças climáticas andam mais rápido do que nós, cientistas.

*ECÓLOGA E PESQUISADORA DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI, IMA VIEIRA SERÁ UMA DAS PERITAS CONSULTADAS POR RELIGIOSOS DURANTE O SÍNODO DOS BISPOS

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