Análises

TEMA PRIVATIZAÇÃO REQUENTOU DEBATE

, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2010 | 00h00

David Fleischer

O formato do Debate de ontem deu um pouco mais de liberdade para os candidatos, sem a definição prévia de temas a serem discutidos. Mas o que mais esquentou o confronto foram as perguntas das jornalistas, direto no fígado de cada um.

José Serra saiu pela tangente ao ser questionado sobre o caso do ex-diretor da Dersa Paulo Souza, criticando o fato de o apelido "Paulo Preto" ser racista. E também não explicou direito as denúncias feitas na imprensa sobre a nomeação da filha do ex-diretor da Dersa. A pergunta foi bem forte. Questionada sobre a ex-ministra-chefe da Casa Civil Erenice Guerra, Dilma enfrentou a pergunta, mas jogou o caso para a Polícia Federal. Não fugiu totalmente da raia.

Achei o debate morno, não houve ataques frontais entre os dois candidatos. Ambos morrem de medo de aumentar a taxa de rejeição e foram aconselhados pelos marqueteiros a não fazer ataques contundentes. A questão da privatização foi novamente levantada, mas requentou o debate, porque Lula já havia usado isso sobre Geraldo Alckmin em 2006.

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SEM DERROTADOS, MODELO SE ESGOTOU

Carlos Melo

Nos primeiros blocos, Dilma Rousseff insistiu no tema "privatização", que deveria ser página virada - mas, aborto e religião também. No entanto, revelou-se sua intenção de vincular o tema ao pré-sal, bandeira empunhada como solução para todos os males. José Serra se viu preso a justificativas por mais tempo do que seria razoável. O tucano focou em suas realizações. Insistiu no que vai se constituindo como bordão: "fiz isto, fiz aquilo!". A "comparação de biografias" soa arrogante e "paulistocêntrica" para o conjunto do País.

A lição básica deste e dos debates anteriores é que o modelo se esgotou: não se discute com profundidade, candidatos respondem o que bem entendem e são ágeis em acusar o adversário de não ter respondido. Estabelecem vetos cruzados e pactos tácitos. Erenice e Paulo Preto surgiram somente pelas vozes das jornalistas. A petista pareceu melhor treinada neste ponto. O tucano justificou seu "esquecimento" em relação ao assessor com uma esfarrapada tangente sobre racismo: o "preto" de Paulo. Ninguém saiu definitivamente derrotado, mas não foi proveitoso.

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VISÃO IDEOLÓGICA DIVIDE CANDIDATOS

Marcus Figueiredo

Em relação aos debates anteriores, o encontro de ontem foi muito melhor. Muito melhor porque os dois candidatos debateram questões relevantes em relação ao futuro, principalmente em relação à Petrobrás e a outras estatais estratégicas. Portanto os eleitores vão poder decidir com mais confiança entre os dois candidatos.

Debateram também em detalhes questões estratégicas, como a infraestrutura do País. Seja quem ganhar, Dilma Rousseff ou José Serra, se cumprirem os projetos que estão apresentando, o Brasil ficará bem melhor.

O que divide os dois candidatos é uma visão ideológica sobre o papel do Estado na promoção do desenvolvimento. Enquanto a aliança tucanos e democratas dá mais força ao mercado, a aliança do PT com os partidos de esquerda dá mais ênfase ao projeto do "welfare state", ou seja, a uma visão mais social-democrata.

O único senão do debate são as acusações. Isso, para mim, confunde e desestimula o eleitorado. E o resultado é imprevisível, porque o "bate-boca" prejudica os dois candidatos.

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ELEITOR PAULISTA PASSA A SER ALVO

Marcelo de Moraes

Para impedir o crescimento do tucano José Serra nas pesquisas de intenção de voto, a petista Dilma Rousseff aproveitou o debate para mirar num alvo novo e importante: o eleitorado paulista.

Com mais de 30 milhões de eleitores, São Paulo pode render a Serra o crescimento para reverter a liderança de Dilma na disputa.

Foi esse risco que a campanha petista enxergou e decidiu atacar. Dilma e o PT sabem que no primeiro turno, Serra terminou bem abaixo do que poderia obter no Estado, já que Geraldo Alckmin foi eleito governador com dois milhões de votos a mais do que ele conseguiu na disputa presidencial. E o próprio Alckmin ficou aquém do que o PSDB costuma obter em São Paulo.

Para barrar esse fluxo pró-Serra, Dilma criticou a gestão tucana no Estado, especialmente na Educação. Mas fez referência até ao PCC.

Serra percebeu a manobra e rebateu, dizendo que a adversária parecia candidata ao governo e que repetia o discurso do PT paulista de falar mal do Estado. Com tantos votos em jogo, São Paulo pode virar a arena eleitoral decisiva.

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