Analistas criticam propostas de economista ligado a Alckmin

Governo e economistas criticaram as propostas apresentadas nesta terça-feira, em exposição na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pelo economista Yoshiaki Nakano, um dos formuladores do programa econômico do candidato à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB). O economista defendeu o equilíbrio entre o juro interna e as taxas externas, a fim de equilibrar a conta de capitais do País; um câmbio flutuante, porém administrado; o controle de capitais de curto prazo; e o corte nas despesas correntes em 2007 da ordem de 3% do PIB (R$ 60 bilhões).Dos economistas vieram as principais críticas ao uso da política monetária para o equilíbrio da entrada de dólares no País. Já o governo criticou o corte de gastos. Para o diretor de estratégia para América Latina do WestLB em Nova York, Ricardo Amorim, as propostas para a economia contêm "dois problemas sérios". "O primeiro deles é que ele pretende utilizar o mesmo instrumento, que são as taxas de juros, para atacar dois objetivos distintos. Um a meta de inflação e o segundo, um equilíbrio das contas de capital", avaliou. "Não é possível com um arco e uma única flecha conseguir acertar dois alvos", acrescentou.Em sua proposta, Nakano defendeu a queda do juro interno para que, em equilíbrio com as taxas externas, reduzam a entrada de dólares no País. Hoje o juro externo é maior que o interno. O investidor prefere aplicar seus recursos no País, o que acaba atraindo mais dólares para o mercado interno. Com esta proposta, Nakano prevê um equilíbrio na conta de capitais. O fato é que essa medida (a queda do juro) traria outros efeitos, como o estímulo ao consumo, pressionando para cima a inflação. Além disso, as importações ficariam mais caras, o que também contribui para a alta da inflação.Amorim, entretanto, diz que Nakano tem razão quando fala que uma política monetária com juros mais baixos aliada a uma política fiscal mais restritiva levariam a uma taxa de câmbio menos valorizada. "Só que a dose do que ele parece propor não parece ser suficiente", disse. O economista-chefe para a América Latina do ABN Amro Bank, Alexandre Schwartsman, foi duro em suas críticas: ?não fiquei surpreso com as declarações porque ele não entende nada de economia. Essa idéia de usar a política monetária para equilibrar a conta de capitais é uma invenção do Yoshiaki?.Segundo ele, o regime de câmbio fixo é feito para equilibrar o balanço de pagamentos. ?Talvez seja isso que esteja na cabeça dele, de forma incompleta?, afirma o economista do ABN Amro, acrescentando que o que o economista da FGV está propondo é usado na Argentina, onde mesmo com o controle de preços a inflação roda na casa dos 11% ao ano. Para Schwartsman, não adianta nada se estabelecer uma meta de inflação se o câmbio estiver sendo usado para controlar a conta de capitais. ?Essa conta não fecha. Sou obrigado a recorrer a uma citação do Papa Bento XVI que diz que ?sem Deus a conta não fecha??, ironiza Schwartsman. O gerente de política monetária do Banco Itaú, Joel Bogdanski, também criticou as propostas de Nakano. Segundo ele, utilizar a política monetária para equilibrar a conta de capitais é uma política equivocada. ?O Brasil tem uma política monetária clara e voltada para o controle da inflação, criada por um decreto presidencial e cuja meta é claramente decidida com dois anos de antecedência?, afirma.Ele acrescentou que qualquer declaração em contrário teria que considerar a exigência de uma alteração presidencial. ?A política monetária no Brasil já tem seus objetivos e não precisa de outros. Se outros objetivos forem realmente necessários, precisarão encontrar outros instrumentos adequados?, afirma Bogdanski.Governo questiona cortesDe acordo com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a proposta do economista de cortar mais 3% do PIB em gastos é inviável e matematicamente impossível de ser implementada. Com números das contas públicas na mão, Mantega mostrou que a implementação de tal idéia só seria possível se os programas sociais fossem eliminados."Quero saber quais ovos serão quebrados. É impossível cortar 3% do PIB sem acabar com programas sociais", disse o ministro. "Quero saber de onde vão ser tirados esses R$ 60 bilhões. Matematicamente não dá para fazer isso." Segundo ele, o Governo Lula aposta no gradualismo na gestão das diferentes áreas da política econômica.O coordenador da campanha da coligação A Força do Povo (PT, PRB e PCdoB), Marco Aurélio Garcia, em nota, criticou a proposta e disse que este corte de gastos levaria o país à recessão e o governo federal à inoperância. Segundo ele, se efetuado, este corte seria equivalente a 13% do total das receitas líquidas do Orçamento do Governo Federal de 2006, que é de R$ 454,5 bilhões. Sem uma reforma constitucional, afirma Garcia, só haveria um lugar onde efetuar esta redução: as chamadas despesas discricionárias, ou seja, custeio e investimentos dos ministérios. Garcia disse ainda que Nakano apontou o "deficitário sistema de Previdência Social" como um dos principais alvos deste corte monumental, mas não identificou o que entende por "gordura" na burocracia pública.Em outras palavras, diz a nota, o possível futuro ministro de Alckmin propõe a paralisia da máquina administrativa, com três conseqüências graves: 1) reduzir os benefícios conquistados pelos idosos, como a melhoria do salário mínimo concedida pelo governo Lula, que foi criticada por vários economistas tucanos; 2) interromper o processo de redução da pobreza e da desigualdade que vem sendo registrado nos últimos quatro anos, detectada em estudos da FGV, IPEA e BNDES; 3) provocar uma séria recessão, já que haveria queda na renda da população e nos investimentos públicos alavancadores da economia. PreocupaçõesO diretor do WestLB admitiu que o mercado já se preocupa com os possíveis nomes que irão ocupar o próximo governo e as políticas que seriam adotadas por cada um dos governos. Nakano, por exemplo, na opinião de Amorim, poderia fazer um bom trabalho no Ministério do Planejamento. "Ele provou no governo de São Paulo, a capacidade de fazer um bom trabalho na parte administrativa e conseguir levar a uma redução de gastos, que é o principal desafio do próximo governo", disse. Ele ressaltou, no entanto, que a reação não seria positiva caso ele fosse indicado para a Fazenda. "A reação possivelmente seria bastante negativa". Amorim observou, porém que o fato de o mercado não ter alterado o humor hoje diante de suas declarações mostra que a possibilidade de ele ocupar a Fazenda não está sendo considerada. Ainda no caso de uma vitória de Alckmin, o mercado receberia bem a nomeação de um político para a Fazenda, citando como exemplo, senador Tasso Jereissati, presidente nacional do PSDB.

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