Analistas do Cone Sul temem ´menor atenção´ de Alckmin

Analistas do Cone Sul acreditam que um eventual governo de Geraldo Alckmin no Brasil daria maior importância à relação com as economias mais desenvolvidas do que com as da região, que hoje, entendem, recebem mais atenção do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.Para eles, como comentou o cientista político uruguaio Gerardo Caetano, o segundo turno das eleições, no dia 29, é "fundamental" para a América do Sul."Para o Mercosul e a América do Sul em geral, não é o mesmo que o Brasil seja governado por Lula ou por Alckmin", disse Gerardo Caetano, da Universidade da República, de Montevidéu. "Não é que o Mercosul vá terminar com um governo de Alckmin. Mas o bloco vai ser reduzido ao mínimo, como era até 1991", afirmou ele, referindo-se ao ano de assinatura do Tratado de Assunção, que criou o Mercosul.Lula e Alckmin têm propostas diferentes em relação à política externa. Lula pretende manter a linha adotada nos últimos quatro anos, de fortalecimento das relações com os países em desenvolvimento, a chamada política sul-sul.Alckmin já afirmou em seu programa de governo que quer intensificar as relações com as economias mais desenvolvidas. Alguns consideram sua proposta mais pragmática, com uma orientação para resultados econômicos e busca de alianças com parceiros mais tradicionais.Relação privilegiadaSegundo Gerardo Caetano, caso eleito, Alckmin tentaria ainda transformar o bloco num TLC (Tratado de Livre Comércio). Caetano ironizou, apelando ao portunhol: "Seria o TLC más grande do mundo".Na opinião do acadêmico, chegaria ao fim a relação "privilegiada" que hoje o Brasil mantém com a Argentina."Certamente, uruguaios e paraguaios não têm razão para se preocupar com uma possível derrota de Lula. Mas, em termos estratégicos, seria muito ruim para todos os países integrantes do Mercosul."Os governos do Uruguai, do presidente Tabaré Vázquez, e do Paraguai, de Nicanor Duarte Frutos, não cansam de repetir a insatisfação com essa ?relação privilegiada? entre os dois maiores sócios do bloco e afirmam sentir-se marginalizados nesta integração.Publicamente, na semana passada, o governo de Vázquez informou que desistia de um TLC com os Estados Unidos e se manteria no Mercosul.De acordo com Gerardo Caetano, a desistência ocorreu porque esse acordo não seria "benéfico" para o Uruguai.Ele e outros acadêmicos dos países vizinhos ao Brasil participam desde segunda-feira de um seminário sobre América Latina realizado pelo Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade Nacional de San Martin, de Buenos Aires.Gás bolivianoNa visão do cientista político e filósofo boliviano Luis Tapia, da Universidade Maior de San Andrés, de La Paz, a "impressão geral" na Bolívia é a de que se Geraldo Alckmin for eleito presidente, as negociações econômicas entre os dois países "serão mais difíceis"."Se Lula continuar no governo, temos a sensação de que será mais fácil negociar os novos contratos de fornecimento do gás boliviano ao mercado brasileiro", afirmou Tapia.Na realidade, se nada mudar, o governo do presidente da Bolívia, Evo Morales, estipulou como prazo máximo o dia 31 deste mês para se chegar a um acordo de hidrocarbonetos com as empresas transnacionais, entre elas a Petrobras.Ou seja, dois dias após o segundo turno, mas faltando dois meses para o fim do atual mandato do presidente Lula.Cético com um resultado ou outro das eleições do dia 29, o sociólogo peruano Julio Cotler, do Instituto de Estudos Peruanos, disse que para seu país a reeleição de Lula ou a eleição de Alckmin não alteram em nada a relação entre Brasil e Peru."Que diferença faz? Eu até posso dizer que tenho mais simpatia por um do que pelo outro. Ou afirmar que os peruanos preferem esse a aquele. Mas nada disso tem importância na relação política e econômica entre os dois países". Mas não aumentou a integração entre Brasil e Peru na gestão Lula? "Sim, aumentaram as obras das estradas, o que é importante para as empresas."Na Argentina, num comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores, o chanceler Jorge Taiana destacou que as eleições (no primeiro turno) formam parte da "fortaleza das instituições democráticas no Brasil".Aos jornais argentinos, como o Clarin, o subsecretário de Integração Econômica Americana e Mercosul, Eduardo Sigal, falou da importância da vitória de Lula para a Argentina."Não há nenhuma dúvida da conveniência de que ganhe Lula. (O presidente Nestor) Kirchner disse, e esse mesmo clima é percebido em todo o governo", afirmou, horas depois do fim da votação, no domingo.

Agencia Estado,

03 de outubro de 2006 | 11h30

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