Analistas põem promessas de crescimento em dúvida

Durante a campanha presidencial, tanto o presidente Luiz Inácio da Silva quanto o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, têm prometido um crescimento médio de 5% ao ano para o Brasil. Essa promessa, no entanto, é colocada em dúvida por analistas internacionais.Com projeções de crescimento ao redor de 3,5% ao ano para os próximos anos - taxa similar à de 2006 -, o mercado avalia que números mais altos só poderão ser atingidos se o próximo governo mexer em pontos delicados, como a diminuição dos gastos públicos e a realização de reformas mais profundas na estrutura do Estado. "As expectativas de crescimento para o Brasil não são excepcionalmente boas, ficando em cerca de 3,5% nos próximos anos. Podem variar levemente, de acordo com as condições globais e a aceitação das exportações brasileiras, que por hora estão bem", afirmou Jill Hedges, editora de América Latina da consultoria Oxford Analytica.Os analistas ouvidos pela BBC Brasil também são unânimes em apontar que o resultado das eleições presidenciais deve influir pouco no crescimento do País nos próximos quatro anos. "Não há grandes diferenças entre os dois candidatos", conclui o analista Jim O´Neill, do banco de investimentos Goldman & Sachs. Longo prazoPara eles, um crescimento maior só tem chance de começar a virar realidade no longo prazo e vai depender, em grande parte, das medidas implementadas no próximo governo."A vitória de Lula ou Alckmin não deve fazer grande diferença nos próximos três ou quatro anos. Mas, no longo prazo, um maior controle dos gastos governamentais e reformas estruturais serão decisivos para os resultados", disse Jill Hedges."Mesmo Lula, que sempre advogou por uma política mais voltada à distribuição de renda, se deu conta de que essa distribuição de renda só pode ser obtida com uma economia sólida", afirmou Jim O´Neill.Para O´Neill, é importante manter os ganhos econômicos obtidos até agora. "Nos últimos dez anos, a economia foi fantasticamente bem gerenciada sob o ponto de vista macroeconômico, em termos de controle de inflação, particularmente", disse."Mas ainda há o que fazer em termos de redução de dívida interna, aumento de taxas de investimentos e estímulo à privatização, para garantir que o crescimento da próxima década fique em torno de 4% a 5%, em vez de 2% a 3%."Nos últimos dez anos, o Brasil só atingiu desempenho semelhante em 2000 e em 2004, quando a taxa de crescimento foi, respectivamente, de 4,36% e 4,94%."O maior desafio do próximo governo é manter os ganhos de uma política macroeconômica estável", diz Justine Thody, diretora para a América Latina da Economist Intelligence Unit, empresa ligada à revista Economist.InflaçãoOs analistas ouvidos pela BBC Brasil foram unânimes em rejeitar a tese de que o Banco Central brasileiro poderia ser mais flexível com as taxas de juros e admitir taxas de inflação um pouco maiores para favorecer o crescimento."Não creio que o BC esteja sendo muito conservador. A política adotada é a adequada para que o País possa ir se ajustando. É muito fácil promover crescimento econômico artificialmente. O problema é que isso não se sustenta e depois causa sérias conseqüências", afirmou O´Neill.Justine Thody segue a mesma linha. "O Banco Central tem respondido com cautela na questão da taxa de juros porque o Brasil tem um histórico muito curto de estabilidade macroeconômica. A política de cautela é também no sentido de consolidar essa imagem de responsabilidade", disse. "É difícil dizer até onde é possível acelerar o crescimento econômico com inflação sem correr riscos.""Ainda há risco de inflação, e as taxas de juros ajudam a controlá-la. O BC me parece correto em adotar tal postura para não correr riscos", concordou Jill Hedges.

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