Analistas prevêem ´guerra´ no segundo turno

O cenário montado para o próximo governo é preocupante, qualquer que seja o vencedor das eleições no segundo turno, considera o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Fernando Lattman-Weltman, doutor em Ciência Política. De acordo com ele, a campanha está muito radicalizada, muito violenta, e provavelmente continuará assim no segundo turno. "Há uma luta sem quartel, com objetivo imediatista de ganhar as eleições", disse, em entrevista à Agência Estado. "Dificilmente vamos ter um clima de concertação que esse país tanto precisa. Não vejo nenhuma voz pregando moderação."Mas Weltman avalia também que, apesar da dificuldade, não será impossível aprovar projetos de interesse da sociedade. "Vai depender também do surgimento de bombeiros, que podem ser, por exemplo, os governadores", disse.Em relação à volta de políticos como o ex-presidente Fernando Collor, eleito senador em Alagoas pelo PRTB, e o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, deputado federal mais votado em São Paulo: "falaram tão mal deste Congresso. Vamos ver o que vem por aí".Ele ressaltou que acredita que o País tem instituições fortes, especialmente na esfera federal.Vantagem tucanaO cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fábio Wanderley Reis, afirmou que Alckmin larga com vantagem para o segundo turno. "A surpreendente conquista da vaga no segundo turno pode amplificar a vantagem de Alckmin e fazer com que sua largada nessa campanha tenha um clima mais favorável à sua vitória", destacou.O professor, que foi um dos que apostaram na reeleição do presidente Lula no primeiro turno, destacou que o escândalo do dossiê Vedoin teve um impacto maior do que a campanha do petista esperava. "E o clima de crescimento que tomou conta da candidatura Alckmin acabou quebrando o encanto popular que tinha em torno da vitória de Lula já no primeiro turno."Para Fábio Wanderley, o clima deste segundo turno deverá ser muito acirrado. "Podemos esperar um verdadeiro clima de guerra, muito em função dos desdobramentos das investigações do escândalo do dossiê Vedoin", destacou. O professor acredita que todo este clima deverá resultar num impacto psicológico para o presidente Lula. "O presidente começa a disputa de segundo turno já em clima de derrota, pois esperava faturar o pleito no dia 1º de outubro."Lula fragilizadoO cientista político e pesquisador da Puc e FGV de São Paulo Marco Antonio Carvalho Teixeira acredita que Lula entra fragilizado no 2º turno. "As investigações do escândalo do dossiê Vedoin ainda estão em curso e isto deverá pautar os debates desta nova fase das eleições", destacou.Na avaliação de Carvalho Teixeira será muito difícil nesta fase da campanha, o partido do presidente da República passar ileso com as investigações que serão desenvolvidas e que envolverão entre outros fatores a quebra de sigilos e investigações mais profundas a respeito das responsabilidades desta operação.Além disso, ele avalia que os partidos que apóiam Geraldo Alckmin, sobretudo o PSDB e o PFL deverão ganhar um novo ânimo e partir com toda força para que o tucano chegue ao Palácio do Planalto.A ausência de Lula no debate da Globo também foi um fator que pesou na decisão dos eleitores, acredita.Carvalho Teixeira assegura também que alguns governadores que apóiam Alckmin, como José Serra, em São Paulo, e Aécio Neves, em Minas Gerais, deverão ter um peso muito expressivo nesta fase da campanha, pois tiveram votações expressivas nas urnas. " Está claro que Alckmin larga em um cenário mais favorável", reiterou.Escândalos podem minar outro mandatoEm conseqüência dos escândalos ligados ao dossiê Vedoim, a perspectiva para reformas estruturais pode estar em risco nos próximos quatro anos em caso de reeleição de Lula. Uma vez que o governador eleito de São Paulo pelo PSDB, José Serra, seria a principal vítima do dossiê, a oposição poderia reagir fortemente a Lula no Congresso, dificultando a costura de uma base de apoio ao governo federal em caso de reeleição, pondera o Lehman Brothers.Sendo José Serra a potencial vítima do mais recente ataque do PT com o dossiê Vedoin "e um forte candidato à corrida presidencial em 2010", o vice-presidente e estrategista para mercados emergentes, John Welch, ainda mesmo antes da definição de segundo turno, previa que a oposição composta pelo PSDB e pelo PFL poderá ir fortemente contra Lula se ele for reeleito, podendo até mesmo, se assim for confirmado, vir a propor um processo de impeachment. "Até o primeiro turno, a oposição não pressionou tão duramente como poderia", estima.O analista pondera que a vitória de José Serra (PSDB) para governador de São Paulo e de Aécio Neves (PSDB) no governo de Minas Gerais deve prejudicar a habilidade de Lula em reunir apoio no Congresso em um eventual segundo mandato. Se Lula vier a vencer o segundo turno, adverte o Lehman Brothers, aumenta o risco de que não haja qualquer aprovação de reforma em um segundo mandato do petista.Por outro lado, sem maiores pressões da oposição, a dinâmica política poderia permitir aprovação de algumas reformas no início do segundo mandato. Mas "se houver a criação de uma nova CPI para investigações ligadas ao caso Vedoim no Congresso, praticamente congelará a aprovação de reformas bem como cortes de gastos", adverte o analista.Ao alcance de AlckminO cientista político Christopher Garman, do Eurasia Group, em Nova York, disse que espera por uma campanha muito mais acirrada, por conta do desenrolar da crise do dossiê. "Não acho que vai ser violenta pela estratégia de campanha do Lula e do Alckmin, mas certamente poderá ficar mais acirrada", disse. "A eleição vai ser apertada e agora está ao alcance do Alckmin", acrescentou.Garman reconhece que as chances de Alckmin vencer cresceram nos últimos dias. "É possível, mas não provável. Acho que a vantagem de Lula permanece". Para Garman, além de novos dados sobre a origem do dinheiro para compra do dossiê, uma cobertura da mídia muito intensiva da crise também pode levar à derrota de Lula.O cientista político reforçou ainda que o desafio de Alckmin será capturar os eleitores que votaram nulo em protesto e também "roubar" os eleitores de Heloísa Helena e Cristovam Buarque. Outra vantagem para o candidato tucano, segundo ele, poderá ser o apoio do PSDB e do PFL no nordeste, que relutaram em dar apoio no 1º turno porque tinham seus candidatos ao governo do Estado. Agora com seus candidatos eleitos, eles podem apoiar o tucano. "Acho que Alckmin ganha musculatura nos Estados no segundo turno. Eu reestimei para cima a possibilidade de vitória do Alckmin, mas ainda não acho provável".´Roubo´ de eleitoresAlckmin terá necessariamente que tirar votos de seu adversário, o candidato à reeleição pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva e não contar apenas com a transferência de votos dos candidatos derrotados. A análise é do cientista político Cláudio Couto, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)."Acredito que a maior parte dos eleitores de Heloísa Helena tendem a ir para Lula, enquanto os votos de Cristovam devem ser divididos", analisou Couto à Agência Estado.Alckmin, neste cenário, precisará "convencer" uma parte do eleitorado de Lula de que é melhor preparado para administrar o País. Para ser bem-sucedido, Couto entende que Alckmin deverá diminuir a exploração política dos temas da ética e corrupção, priorizando questões programáticas. "O foco dos debates será o como fazer, e não mais o quê fazer", exemplificou.Na visão do cientista, o arco de alianças nos Estados também será uma peça fundamental da estratégia dos dois candidatos, especialmente onde haverá segundo turno para o governo.

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