Animação clássica revive em SP

Grupo de profissionais monta na Aclimação escritório para criar filmes de desenhos feitos totalmente à mão

Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

28 Fevereiro 2009 | 00h00

Em uma casa comum ao lado do Parque da Aclimação, na zona sul de São Paulo, seis pessoas se debruçam sobre suas mesas para criar algo que encanta crianças e adultos. Todos desenham diferentes personagens, ambientes e climas que no fim serão reunidos em um único trabalho. Uma prévia aparece quando eles usam a "mesa de projeção" e um desenho fica sobre o outro. Como uma brincadeira de criança, eles levantam e abaixam as folhas para criar uma sequência de movimentos e dar vida aos personagens. No fim, o trabalho deles vai parar nos principais estúdios do mundo, como a Disney. Um dos diferenciais desse grupo é que eles optaram por trabalhar com a chamada animação clássica. Em uma época em que a maioria dos desenhos animados é feita no computador, eles utilizam somente as obras no papel para representar todos os movimentos dos vídeos. E por isso eles desenham muito, em média 7 mil desenhos para um minuto de cena. As animações são divididas em 3-D e 2-D. As primeiras são feitas basicamente no computador, mostrando os vídeos de diversos ângulos, com perspectivas e muitos efeitos especiais. Toy Story é o exemplo mais conhecido desse tipo de trabalho, que oferece uma imagem mais real. A 2-D, por outro lado, é feita toda com desenhos e usa os computadores apenas para colorir e para fazer a montagem dos vídeos. O modelo 2-D foi usado com sucesso durante décadas nas animações da Disney. Após um período de ostracismo, ela ressurgiu com toda a força nos anos 1990, principalmente após o lançamento de O Rei Leão. Nesse tipo de trabalho, é preciso um mínimo de 12 desenhos por segundo para que as falhas nos movimentos dos personagens não sejam percebidas. O que diferencia a animação clássica - adotada nos grandes filmes - é que ela requer o máximo de 24 desenhos por segundo. "A animação clássica exige um trabalho maior, mas tudo isso é recompensado quando você vê o produto final. Se por um lado ela perde para o 3-D em realismo, por outro ela ganha por oferecer um olhar diferente. É mais sonho, mais mágica", diz a animadora Rosana Urbes, de 40 anos. A produtora que montou com o marido e alguns amigos é a única do Brasil que trabalha com esse estilo. O projeto começou quando Rosana e o marido, o americano Rune Brandt Bennicke, de 33 anos, deixaram a equipe de animadores da Disney, em 2004. Foi o período de baixa da animação clássica e ascensão dos vídeos 3-D. Nos anos 1990, no então ressurgimento dos desenhos, os estúdios dos Estados Unidos começaram a buscar mão-de-obra especializada em todo o mundo. Foi nessa época que ela entrou no mercado da animação. "Nós entramos na Disney no auge e por anos fizemos parte das equipes de grandes filmes. Quando começamos a subir lá dentro, esse tipo de animação começou a cair", brinca Rosana. Ela ficou seis anos no estúdio e o marido, oito. Os dois trabalharam em filmes de sucesso, como Mulan, Tarzan e A Nova Onda do Imperador. Bennicke chegou a ser indicado ao prêmio Ammye - um dos principais de animação - na categoria desenvolvimento de personagem por Irmão Urso. Fora do estúdio, eles começaram a realizar trabalhos freelancers para os estúdios americanos, como a California. Os dois decidiram se mudar para São Paulo em 2007 e abriram a produtora R&R, convidando alguns amigos para fazer parte do projeto. Como os vídeos de animação clássica são mais trabalhados, eles também custam mais - entre US$ 50 mil e US$ 200 mil - e por isso quase toda a produção é destinada para estúdios no exterior. "É uma oportunidade de voltar a fazer esse tipo de trabalho. Há um tempo, os estúdios começaram a criar histórias ruins para animação 2-D e o público começou a relacionar que esse tipo de animação é que não prestava", diz o animador Douglas Ferreira, que trabalhou em filmes como Asterix e os Vikings e no francês Petit Potam. "Que bom que esse mercado está reabrindo." Na casa da Aclimação, cada um trabalha em um ambiente e também em uma parte diferente do que vai ser o filme. Os primeiros passos são criar o personagem e o cenário onde a história se desenrola. O próximo passo é criar o storyboard, que é um tipo de história em quadrinho com os diálogos, e depois cada animador atua nos movimentos de um personagem. Todos serão reunidos no fim para compor uma cena: o protagonista, um passarinho voando ao fundo ou uma árvore que balança com o vento. É somente por meio da experiência e das inúmeras tentativas seguidas que eles descobrem se no próximo quadro o braço de um personagem estará a 45° com o corpo e não a 90°. "A gente imagina como será o movimento, desenha, apaga, desenha de novo... Depois colocamos na mesa para fazer o movimento. E assim vai saindo a sequência", diz a animadora Daniela Fernandes. Tirando storyboards, rascunhos de personagens e os trabalhos que não são aproveitados, são feitos para cada personagem 24 desenhos para um segundo de cena, ou 1.440 para um minuto. Dependendo das cenas, a quantidade de obras pode chegar a 10 mil a cada minuto, sendo que alguns filmes têm duração superior a uma hora. Somente após todos os desenhos prontos é que começa a participação do computador. Um por um, os desenhos são escaneados para receber uma pintura especial. Um software então faz o trabalho de gravar os desenhos em movimento, mesmo papel que antigamente era feito com os dedos na beirada das folhas de papel para passá-las rapidamente e criar o movimento dos desenhos. Nesse ritmo, o grupo brasileiro já coproduziu mais de 30 comerciais com desenhos animados para estúdios dos Estados Unidos, como os com o personagem Tigrão, dos cereais Kellog?s. Além disso, eles criaram outros personagens e também a animação de filmes da Disney - ou partes deles - como Branca de Neve, Ursinho Pooh e Amigos e Timon e Pumba. O último trabalho - que não podem revelar por questões contratuais - é a história em desenho animado de um famoso atleta americano. Coproduzido com um estúdio da Espanha e outro dos Estados Unidos, o grupo brasileiro ficou responsável por uma cena de três minutos da animação, que a princípio será um comercial, mas, por causa da popularidade do atleta, já há previsão para que se torne um filme. Rosana conta que o trabalho inteiro poderia ser feito no Brasil, mas ainda há poucas pessoas atuando com eles e, por isso, precisaram repassar parte do projeto. Para reproduzir com perfeição os movimentos do atleta, a equipe estudou durante dias vídeos no YouTube, prestando atenção na forma como ele segura os equipamentos - em detalhes mínimos, como por exemplo, como ficam os dedos - como ele executa as jogadas e as expressões que faz após um bom lance. Às vezes, os próprios animadores se levantavam e imitavam os movimentos. "A gente mergulha a fundo no trabalho e às vezes nem percebemos o que estamos fazendo. Trabalhamos em partes isoladas, mas, no fim, emociona quando sentamos e assistimos a tudo", diz Rosana.

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