Anônimos abastecem coleção temática

Em instituições como o Memorial do Imigrante, o acervo nasce das contribuições de pessoas da comunidade

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

Em museus menos badalados do que a Pinacoteca do Estado - em que 54% das obras vieram de doações de artistas -, a composição do acervo é completamente diferente. "Nos museus de acervo com temática específica, como o Memorial do Imigrante e o Museu da Imagem e do Som, é a coleção das pessoas que fez e faz o acervo", explica a museóloga Juliana Monteiro, uma das responsáveis pela padronização do acervo de instituições da capital no programa da Secretaria de Estado da Cultura. "Cerca de 70% das peças desses locais surgiram assim. É o que chamamos de ?doações de particulares?." Particulares, no caso, é outro nome para os milhares de anônimos que ajudaram a compor o patrimônio histórico e cultural de São Paulo.No Memorial do Imigrante, criado em 1993, na Mooca, zona leste da capital, praticamente tudo resulta de doação de descendentes. O neto de italianos, quando fechou a centenária loja de meias da família, doou objetos que demonstravam os antigos modos de cerzir - cedeu agulhas, ferro de etiquetar meias, motor e pedal de cozer, pernas-modelo para teste das peças, 20 pares de meias de época. A filha de portugueses entregou a alfaiataria que era do pai. A descendente de russos, além de doar utensílios que continuava usando em casa - samovares, prataria, talheres centenários -, ainda convenceu a comunidade inteira a fazer o mesmo.Em 1996, o acervo do Memorial não guardava nada que lembrasse a imigração russa ao País (cerca de 119 mil vieram entre o fim do século 19 e a década de 1950). Foi quando Tamara Kalinin, filha de um oficial do exército branco - que defendia o imperialismo, derrotado na Revolução Russa -, então presidente do Círculo Cultural Russo Nadejda (Esperança) em São Paulo, resolveu intervir. A princípio, doou objetos domésticos. Depois, convenceu os vizinhos da Vila Zelina, reduto de imigrantes do leste europeu em São Paulo, a fazer o mesmo. Dois meses depois, realizava a primeira exposição temática sobre a Rússia no Memorial - hoje, o museu conta com cerca de cem objetos relativos aos ofícios e costumes russos."Tanta gente sofreu para chegar aqui e, quando chegou, trabalhou tão duro. Doar objetos que os lembrem é a forma de reconhecer o que foi feito por nós", diz Tamara, aos 78 anos. Com novos objetos doados - incluindo um oratório construído pelo marido de Tamara, o engenheiro Arkadii Kalinin -, uma nova exposição sobre imigração russa é abrigada atualmente no Memorial. Nas plaquinhas ao lado de 12 das 30 peças expostas, estão as palavras "Família Kalinin". "Agora, vou parar um pouco de doar, para ter o que mostrar aos netos, para aprenderem nossa cultura", diz. "Mas o hábito da doação vou passar adiante, isso vai chegar a eles com certeza."Hábito de doação que atingiu de súbito, também, a decoradora Maria Helena Loureiro Xavier, na década de 1970. Época em que seu tio, o bispo d. Paulo Rolim Loureiro, da Diocese de Mogi das Cruzes - Rolim hoje dá nome à rodovia conhecida como Mogi-Bertioga -, morreu num acidente de carro (1975). Maria Helena tirou da parede um dos objetos de que mais tinha orgulho: um retrato do tio, pintado pelo artista Samson Flexor, em 1951. Doou para o Museu de Arte Sacra de São Paulo, "para que a memória não acabasse perdida num porão qualquer". Além disso, cedeu à instituição, em 2005, outras 30 peças - entre elas, um anel de ouro e ametista, consagrado pelo papa João XXIII, em 1948. "Até por questão de segurança, achei irresponsável ficar com aquilo tudo em casa. A história de meu tio merece ser exposta", afirma Maria Helena, orgulhosa - ela conta, com sorriso nos lábios, que foi seu tio quem abençoou, ao lado de Assis Chateaubriand, a novíssima TV Tupi na inauguração, em 1950.?O QUE DEVE SER MOSTRADO?Nos museus mais importantes, mais uma vez a força dos anônimos - no Masp, entre notórios colaboradores como Walter Moreira Salles e os irmãos Jafet, uma multidão de desconhecidos. Como a musicista holandesa Dini Meyer, que morreu em 2007 em Carambeí, cidade de 17 mil habitantes no interior do Paraná, que doou, in memoriam, cinco obras de artistas da Holanda dos séculos 16 e 17. No seu testamento, segundo conta seu advogado, a melhor definição de doação: "Para não levar comigo o que deve ser mostrado a todos."

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