Antiaids vira droga ''recreativa''

Trio formado por ecstasy, remédios contra impotência e para combate ao HIV é usado para esquentar a noitada

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Um trio perigoso começou a frequentar salas escuras de baladas e festas particulares, predominantemente procuradas pelo público gay. É a mistura de três pílulas - medicamento contra impotência, ecstasy e uma das drogas usadas no coquetel antiaids - que revela não apenas a postura suicida dos jovens com relação às doenças sexualmente transmissíveis como também a necessidade, a qualquer custo, de "alucinar" durante as noitadas. O pagamento de até R$ 200 pela tríplice de comprimidos é justificada com argumentos que têm aterrorizado quem os escuta: o ecstasy é para pirar, o remédio antidisfunção erétil, para ter fôlego, aguentar todas as relações sexuais e aumentar a libido e o remédio contra aids é porque sabem que vão fazer sexo sem camisinha depois de tanta piração. Acreditam que o remédio pode impedir a infecção, o que não tem nenhuma comprovação científica. Usuários dizem que já havia a cultura de recorrer a fortes medicamentos para tratar o HIV pós-sexo de risco, chamado de "coquetel do dia seguinte". Agora, as baladas mostram que engatinha a "moda" da pré-exposição. O comportamento negligente não para aí. A combinação de remédios usada para tratar o vírus HIV, importante conquista para a sobrevivência dos pacientes soropositivos, também foi desvirtuada para a categoria de "drogas recreativas". SEM LIMITE DE GRUPOAlém da ideia extremamente perigosa de que pode ser uma proteção para a roleta russa que é ter relações sexuais sem preservativo, também é consumido para dar um "plus no barato", com o intuito de conseguir aumento da ereção e alucinação. O alerta dos especialistas quanto à prática é que mesmo que esse comportamento arriscado hoje esteja restrito ao grupo gay (e endinheirado), a história da aids já mostrou que a doença não segue nem respeita orientações sexuais. "É uma situação que nos preocupa porque acende a suspeita de um comércio paralelo de antirretrovirais (medicamentos do coquetel antiaids)", afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Juvêncio Furtado, que em seu consultório já ouviu o relato de pelo menos seis pacientes que contaram como o trio tem sido usado na noite paulistana. "No início da epidemia de aids (anos 80), havia um contrabando da medicação que acabou quando foi ampliada a cobertura dos pacientes pelo Sistema Único de Saúde (em 1996). Ainda que nada tenha sido comprovado, essa hipótese agora volta à tona."Atualmente, todos os cerca de 600 mil portadores de HIV que residem no Brasil são assistidos pelo programa nacional e gratuito que cuida da aids no País. Aqueles que estão em fase mais debilitada de saúde, com a carga viral da doença alta, recebem gratuitamente uma combinação de antirretrovirais, elaborados individualmente para cada paciente. A distribuição é totalmente controlada, não há venda em farmácia, mas o comportamento negligente dos próprios soropositivos é o que fomenta as noites alucinantes de quem prefere usar todos os tipos de drogas e arriscar um comportamento vulnerável. "Os antiaids são vendidos nas festas por gente que toma o coquetel. Não tem um comprimido X ou Y. É qualquer um", diz Lucas (nome fictício), soropositivo e testemunha desse hábito que vem ganhando corpo nas noites. Leandro (também nome fictício), que durante dois meses deste ano foi adepto do antirretroviral antes da bebedeira pré-sexo sem proteção, conta como conseguia o remédio. PIOR RESSACA DA VIDA"Por muitas vezes comprava de pessoas que conhecia e são portadoras. Em outras, com amigos de amigos", afirma ele, que graças à mistura conseguiu a pior ressaca da vida: o medo de agora estar contaminado. "É muito fácil encontrar os medicamentos para venda. São comercializados como droga até mesmo nas baladas."Esses relatos já chegaram aos ouvidos de Maria Filomena Cernicchiaro, diretora do Ambulatório do Centro Estadual de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo. "É impressionante", diz, lamentando duplamente, tanto pelo descaso com a aids, quanto pelo abuso de drogas que está por trás dessa opção. "É preciso ter consciência. Os medicamentos mudam todo o mecanismo celular, podem causar diarreias severas. Infelizmente, a geração atual associa a prevenção do HIV a um comprimido." BOMBA-RELÓGIOO infectologista do Hospital Albert Einstein Artur Timerman ressalta que o trio de drogas que passou a frequentar as baladas é uma bomba para o coração, coleciona efeitos colaterais, muitos ainda nem mensurados pela medicina, além de representar uma ameaça ainda mais séria para o controle da epidemia da aids. "O uso indiscriminado é uma ode à irresponsabilidade, pode deixar o organismo resistente ao medicamento", afirma . "Isso significa que, se um dia a pessoa precisar do coquetel porque foi contaminada, não vai funcionar." O número de adeptos da mistura potencialmente letal ainda não foi calculado no País. "Já ouvimos falar muito sobre o uso desvirtuado dos antirretrovirais, misturados a outras drogas, mas nunca conseguimos detectar a veracidade disso por meio de estudos científicos", afirma o médico Ésper Kállas, da Faculdade de Medicina da USP, que coordena pesquisas sobre o assunto no Hospital das Clínicas. "No ano passado, um dos médicos que é colaborador do nosso projeto fez um trabalho para tentar mapear esse comportamento em São Francisco, um redutos gay dos Estados Unidos", afirma. A coleta de dados foi feita em circuitos de bares e clínicas. Os resultados mostram que 18% já ouviram falar no trio, parcela que caiu para 2% quando a pergunta era se "uma pessoa conhecida" já fez a pré-profilaxia. "A porcentagem caiu para 0,12% quando o questionamento foi se você já fez uso. "Há dificuldade em identificar se é verdade", diz Kállas. Se essas estatísticas ainda colocam dúvidas sobre o comportamento, outras duas endossam o risco do abuso de drogas e do sexo sem proteção. O último relatório da Fundação Oswaldo Cruz mostra que o País alcançou recorde de mortes por overdose. E o Ministério da Saúde reforçou que a doença avança entre gays jovens.

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