Antigas fábricas vão virar prédios

Conpresp aprovou demolição de uma delas na Mooca, desde que chaminé ?sobreviva?: memória da cidade

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

18 Julho 2009 | 00h00

Num terreno de 50 mil metros quadrados quase inteiramente devastado, uma chaminé de tijolos desgastados resiste como uma relíquia arqueológica da industrialização de São Paulo. Ali no número 237 da Rua Borges de Azevedo, na Mooca, na zona leste, as ruínas da fábrica da Companhia União dos Refinadores de alguma forma também ilustram o desenvolvimento atual da cidade - quando o descuido com o patrimônio do passado não pode mais ser remediado, e a expansão imobiliária é a única resposta para os problemas urbanos. Esse cenário não é exclusividade da chaminé desgastada. Nos próximos meses, pelo menos três das fábricas históricas mais conhecidas da capital irão começar a dar lugar a condomínios residenciais, em uma mudança de perfil que deve se espalhar por São Paulo. Com a valorização da Mooca, do centro e de zonas mais periféricas, as fábricas, seus galpões e suas vilas operárias entraram mira do mercado imobiliário. O terreno na Rua Borges de Azevedo é o primeiro - depois da demolição realizada na semana passada, a Secretaria de Habitação já aprovou a construção de oito prédios de sete andares, sem subsolo, num empreendimento feito pela Magik e Cyrela. O Conselho Municipal de Patrimônio (Conpresp) pediu apenas que se preserve a chaminé, por considerar o "significado para a memória da cidade, cujo desenvolvimento urbano e econômico foi pautado pela industrialização", mas a demolição dos galpões existentes ali foi aprovada por 6 votos a 2. Os conselheiros Marcelo Manhães de Almeida, representante da Ordem dos Advogados do Brasil, e Elton Santa Fé, secretário municipal de Habitação, votaram favoravelmente inclusive à demolição da chaminé. A valorização dos grandes terrenos ainda existentes prossegue por todo o bairro - para se ter uma ideia, um apartamento de 300 metros quadrados que custava R$ 250 mil há cinco anos hoje não pode ser comprado por menos de meio milhão. De acordo com um estudo encomendado pela Prefeitura à Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado, sob a coordenação do arquiteto e urbanista Cândido Malta, a Mooca responde como a região com maior capacidade para receber moradias até 2012 (1,7 milhão ou cerca de 140 prédios). "O motivo pela procura é que o bairro ainda guarda grandes porções de terrenos, que casam muito bem com o conceito dos condomínios-clubes que fazem sucesso hoje no mercado imobiliário", diz o arquiteto e urbanista Carlos Overbeek, que presta assessoria pra incorporadoras. "Se você passar por lá, vai ver que boa parte dos galpões da Avenida Presidente Wilson, que corta a Mooca, está vazia e abandonada, com faixas de ?vende-se?." A poucos metros da União dos Refinadores, por exemplo, a belíssima fábrica da Companhia Antarctica Paulista também já recebeu propostas de construtoras. O endereço que foi sede para a criação da soda limonada em 1912 e do Guaraná Antarctica em 1920 atualmente parece um cenário de filme de terror, com galpões vazios, todas as janelas quebradas e um sem-número de pichações. O único entrave é que o Conpresp ainda não votou o processo de tombamento do local - há um projeto pronto para cinco prédios residenciais, apenas esperando a decisão do conselho. No Pari, na região central, a Usina de Leite União também deve ter toda a sua arquitetura art déco demolida nos próximos meses para virar um conjunto de prédios neoclássicos voltados para a classe média. O alvará de execução de demolição se encontra na Subprefeitura da Mooca desde 27 de maio de 2009. "Verticalizar sempre pode, o céu é o limite. O problema é: e a qualidade de vida?", diz o urbanista Silvio Melcer Dworecki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Segundo ele, a expansão imobiliária não pode ser a única resposta para tentar consertar os problemas urbanos da capital. "Quando um endereço é histórico, vira centro cultural ou vira prédio. Não pode ser assim, é preciso estudar caso a caso, ver os melhores usos, estudar alternativas. São Paulo acaba pagando o preço por essa falta de diversificações, é claro."

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