Antivirais e sífilis

Antivirais poderiam levar a uma pior resposta do sistema imunológico à sífilis

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

Será que tratamentos mais efetivos contra o vírus HIV, causador da aids, poderiam estar contribuindo para o aumento de outras doenças sexualmente transmissíveis? Um novo trabalho sugere que o uso dos antivirais pode estar levando a uma maior exposição ao risco (sexo sem proteção) e a uma pior resposta do sistema imunológico à sífilis.

Os casos de sífilis têm aumentado em boa parte do mundo nos últimos anos, inclusive no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, dados dos Centros de Controle de Doenças (CDC) mostram um aumento de 14% dos casos de sífilis entre 2013 e 2014 e uma elevação de outros 19% no intervalo de 2014 para 2015. Entre os novos casos, 82% foram diagnosticados em homens que fazem sexo com outros homens. Entre os gays e bissexuais, as taxas de infecção chegam a ser quase 100 vezes maiores do que entre homens heterossexuais. As informações são do jornal britânico Daily Mail.

O uso de antivirais tem se mostrado uma estratégia central para o tratamento (controle da infecção pelo vírus HIV no organismo) e para a prevenção, já que ao tornar a carga viral indetectável (os medicamentos fazem o vírus deixar de circular no sangue), ocorre uma redução quase total do risco de a pessoa transmitir o HIV. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera possível erradicar a transmissão sexual do HIV até 2030 se 90% das pessoas portadoras do vírus forem diagnosticadas, se 90% das diagnosticadas receberem tratamento e ainda se 90% das que tomarem remédio conseguirem tornar sua carga viral indetectável.

Alguns problemas podem aparecer com uso mais disseminado dos antivirais. Um deles seria a redução do “fator medo”, que poderia levar as pessoas a se engajarem em práticas sexuais de maior risco, com maior número de parceiros e menor uso de barreiras de proteção. Como consequência, haveria um aumento das taxas de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

Mas um ponto que chamou a atenção dos pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de British Columbia, no Canadá, foi que os casos de sífilis estariam aumentando muito mais do que os de outras DSTs, como clamídia e gonorreia. Como explicar essa diferença? 

Eles desenvolveram, então, modelos matemáticos de investigação que consideram mudanças comportamentais (maior número de parceiros) e pior resposta imunológica à bactéria Treponema pallidum (causadora da sífilis) em pessoas que usam os antivirais. Segundo eles, a combinação desses dois fatores poderia explicar a explosão de casos da doença na população dos homens que fazem sexo com outros homens. 

Para os cientistas, que publicaram artigo na última semana no periódico Sexually Transmitted Infections, os antivirais poderiam enfraquecer algumas respostas celulares (linfócitos T) e mediadores químicos da resposta inflamatória importantes no combate à sífilis. Já a reação a outras infecções, como clamídia e gonorreia, não seriam tão impactadas pelo uso dos antivirais. Se as hipóteses dos pesquisadores forem confirmadas em novas pesquisas seria importante pensar em testagens periódicas contra outras DSTs em pessoas que estão usando os antivirais.

Aplicativos. Outro fator que tem sido apontado com frequência pelas pesquisas como responsável pelo aumento de DSTs, incluindo clamídia e gonorreia, na população mais jovem é o uso disseminado dos aplicativos de encontro, como o Tinder e o Grindr.

Eles potencializariam muito a chance de encontrar um parceiro eventual. Além disso, ao agir de forma mais impulsiva na busca por sexo casual, as pessoas não se protegeriam de forma adequada.

Outra questão que pode ser um complicador para estratégias de prevenção são os modelos mais fluidos e complexos de relação encontrados hoje na população mais jovem. Assim, por exemplo, mesmo que um casal sorodivergente (um positivo e um negativo para o HIV) esteja se protegendo de maneira adequada entre si, ao encontrar outros parceiros, em relações paralelas, nem sempre o mesmo cuidado é reproduzido, expondo as pessoas a outros agentes causadores de DSTs.

*É PSIQUIATRA

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