Ao depor, tenente responsável por ação na Providência chora

O ministro da Defesa admitiu que Marcelo Crivella patrocinou com emenda o início das obras

Marcelo Auler, estadao.com.br

03 de julho de 2008 | 15h17

Ao ser interrogado pelo juiz Marcelo Granado, da 7.ª Vara Criminal Federal, o tenente do Exército Vinicius Ghidetti de Moraes Andrade reafirmou que sua intenção ao levar os três jovens do Morro da Providência para o Morro da Mineira era de apenas dar-lhes "um susto". Pelo seu relato, não estava previsto entregar Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, de 19 ano, David Wilson Florenço da Silva, de 24 , e Marcos Paulo Rodrigues Campos, de 17, para os traficantes.   "Houve um encontro fortuito, tanto que ficamos assustados. Por isto, o sargento Maia foi até eles para explicar que não era nenhuma operação. E que só queríamos dar um susto nos três, que tinham nos desacatado". Segundo o interrogatório, os traficantes então sugeriram que lhes fossem entregue os rapazes, o que acabou acontecendo.   Ghidetti foi muito questionado pelo juiz Granado sobre sua falta de coerência. Primeiro, ele tentou dizer que não pretendia desobedecer ordens do superior, o capitão Laerte Ferrari Alves . "Fui formado na academia e aprendi que se deve obedecer ordens dos superiores. Eu queria dar um susto. Queria deixá-los com 'cagaço'". O juiz quis saber se foi na academia que ele aprendeu a dar "sustos" nas vítimas. E ele não teve explicações.   No momento em que, atendendo ao juiz, fez um relato de sua vida, o tenente Ghidetti não conseguiu segurar o choro ao lembrar que casou-se há seis meses e teve um filho há dois. Mas, em parte alguma do interrogatório mostrou-se arrependido. Apenas insistiu que não imaginava o fim que os jovens acabaram tendo. No que foi novamente cobrado pelo juiz, uma vez que tinha confessado que, por medo, não circula fardado pela cidade.   Granado, por sua vez, deixou claro para os seis réus que estão sendo interrogados hoje que não é ingênuo. E cobrou coerência nos depoimentos: "Não caí de pára-quedas nessa cadeira. Não fui criado em apartamento do Leblon. Não soltei pipa em ventilador, nem joguei bola de gude em carpete. Sou da zona norte, portanto, quero coerência nos depoimentos".  Ghidetti está sendo interrogado, neste momento, pelo Ministério Público. Ele adminitiu às promotoras que viu os rapazes começarem a apanhar na base do morro. Ele os viu levar socos e tapas.   Obra patrocinada   Mais cedo, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, criticou a paralisação das obras pela Justiça Eleitoral no Morro da Providência, no Centro do Rio, e admitiu que o senador Marcelo Crivella (PRB/RJ) destinou emenda parlamentares para a reforma das casas. "Essa obra foi efetivamente patrocinada, no início, pelo senador Crivella, mas a obra tem um sentido social."   Ele também ressaltou que o problema da exploração eleitoral e da candidatura de Crivella à prefeitura do Rio acarretou a paralisação das obras na Providência. Ele questionou os deputados se o que deveria ser levado em consideração nesse caso seria o processo eleitoral ou o bem-estar dos moradores.   "Quero deixa bem claro que essas obras tenham sido feitas tendo por trás a participação de um parlamentar, de emendas parlamentares, inclusive isso é notoriedade no Congresso Nacional. Se nós não pudéssemos fazer obras porque elas têm origem em emendas parlamentares teríamos que suspender as obras do Calha Norte [projeto do Ministério da Defesa de infra-estrutura na região amazônica]".   O ministro falou durante audiência pública sobre a morte de moradores do Morro da Providência nas Comissões de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado e de Relações Exteriores e Defesa Nacional.   (Com informações da Agência Brasil)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.