Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ao lado de Pazuello, novo ministro defende máscaras, mas evita contrariar bandeiras de Bolsonaro

Marcelo Queiroga assume a Saúde no pior momento da pandemia, com o registro de mais de 2 mil mortes diariamente e com o governo sob forte pressão

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2021 | 18h39

BRASÍLIA -  O cardiologista Marcelo Queiroga assumiu nesta terça-feira, 16, o Ministério da Saúde prometendo dar "continuidade" ao trabalho do general Eduardo Pazuello, que deixa o cargo com a gestão contestada e recorde de mortes pela covid-19. No seu primeiro dia de trabalho, Queiroga - o quarto ministro a ocupar o posto em menos de um ano - afirmou que vai assumir o cargo para "executar a política do governo de Jair Bolsonaro, não do ministro da Saúde".

  

Com o governo pressionado a acelerar a vacinação no País, o médico afirmou que irá trabalhar para ter o "resultado mais desejável" no combate ao novo coronavírus e priorizou melhorar o atendimento em UTIs. Na única declaração que destoou do que tem pregado Bolsonaro, Queiroga defendeu o uso de máscaras, medida que reconheceu ser "básica", mas não prometeu romper com políticas sem eficácia que viraram aposta do governo, como o incentivo ao uso da cloroquina. 

Aposta pessoal de Bolsonaro, o cardiologista sinalizou já nas primeiras falas que não fará mudança brusca em ações do governo na pandemia.Queiroga assume o posto após Pazuello acumular desgastes, incluindo uma investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) que apura omissão do governo federal no colapso na rede de saúde do Amazonas em janeiro. A troca de ministros ainda ocorre quando o governo tenta esfriar a ameaça de abertura de uma CPI no Congresso sobre a pandemia. 

Secretário-executivo do Ministério Saúde no início da gestão Bolsonaro, o médico João Gabbardo lamentou o fato de Queiroga assumir a pasta sem rechaçar o uso de cloroquina e ou defender um "lockdown", medidas que contrariam. "O recorde de óbitos hoje será em alta escala. Sugestão: não se posicione contra o lockdown nacional", aconselhou, nas redes sociais, o atual coordenador do Centro de Contingência da covid-19 no governo de São Paulo. 

A desconfiança sobre Queiroga aumentou após a médica Ludhmila Hajjar recusar convite para substituir Pazuello por divergências com Bolsonaro. A médica era apoiada ao cargo por autoridades do Congresso e STF. Em reunião com Hajjar, porém, o presidente manteve a defesa de tratamentos sem eficácia comprovada e rejeitado medidas de restrição de circulação, como um lockdown. A médica ainda afirma que sofreu ameaças de morte após se tornar cotada ao cargo.

Apesar das críticas às ações do governo e o quadro da pandemia, Queiroga afirmou que não não tem "avaliação" sobre a gestão Pazuello. "O ministro Pazuello tem trabalhado arduamente para melhorar as condições sanitárias do Brasil. Eu fui convocado pelo presidente Bolsonaro para dar continuidade a este trabalho e conseguirmos vencer essa crise na saúde pública brasileira", declarou. O médico também disse que irá se basear "na melhor evidência científica". Bolsonaro, porém, fez na pandemia diversas afirmações distorcidas para questionar a eficácia de vacinas, máscaras, lockdown e outras medidas recomendadas para combater a pandemia.

Em outra declaração em sintonia com o Palácio do Planalto, Queiroga disse ser preciso atacar a pandemia, mas preservar a atividade econômica e pediu "união da nação". "Para garantir emprego, renda e recursos", afirmou. Ao lado do médico, em declaração à imprensa no fim da tarde, Pazuello defendeu a sua gestão e disse que não há uma "transição" em curso. "Continua o governo Bolsonaro, continua o ministro da Saúde. Troca o nome de um oficial general que estava organizando a parte operacional, gestão, liderança, administração. Agora vai chegar um médico com toda a sua experiência na área de saúde para ir além", declarou Pazuello. O general e o novo ministro não responderam aos questionamentos dos jornalistas.

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