Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Ao menos 305 km do Rio Paraopeba foram contaminados por rejeito da Vale

Qualidade da água está ruim ou péssima em todos os 22 pontos avaliados pela Fundação SOS Mata Atlântica; rejeito está impedindo entrada de luz, o que dificulta a fotossíntese

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2019 | 18h34

SÃO PAULO - Ao menos 305 quilômetros do Rio Paraopeba foram contaminados pelos rejeitos liberados com o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, no dia 25 de janeiro. O levantamento foi realizado durante uma expedição da Fundação SOS Mata Atlântica na região, em que foi avaliada a qualidade da água em 22 pontos do rio. 

Com duração de 10 dias, a expedição foi encerrada no sábado, 9. A equipe percorreu mais de 2 mil quilômetros de rodovias e estradas próximas ao leito do rio, de Brumadinho até Felixlândia, também em Minas Gerais. A Fundação classifica o resultado como "estarrecedor".

Nos 305 quilômetros analisados, a água estava com qualidade péssima ou ruim. No último ponto, no reservatório de Retiro Baixo, a turbidez era três vezes maior do que o permitido pela legislação. Esse índice é um dos fatores que indica se o rejeito está impedindo a incidência de luz na água. "Sem a passagem da luz, não acontece fotossíntese, então o rio vai morrendo", explica Malu Ribeiro, especialista em água da SOS Mata Atlântica.

Segundo ela, a qualidade da água está diferente ao longo do rio, devido à influência de remansos, barragens e cachoeiras. "Varia bastante, mas, em nenhuma delas, a água chegou a voltar ao estado que tinha antes."

Ao todo, o Paraopeba tem 546,5 quilômetros de extensão, abrangendo 48 municípios mineiros. A contaminação impacta especialmente as comunidades locais, onde vivem ribeirinhos, quilombolas, indígenas e agricultores, que utilizavam a água para subsistência, atividades econômicas e lazer.

O trabalho partiu do que foi chamado de 'marco zero', localizado pouco antes da barragem, no sentido contrário ao curso do rio. Ali a água não estava tomada pela lama, mas já apresentava um nível ruim, enquanto medição anterior ao acidente apontava qualidade  regular.

De acordo com Malu, a água está com consistência distinta da encontrada no Rio Doce após o rompimento da barragem da Samarco em Mariana, em 2015. "No Rio Doce, o rejeito não decantava, o que dificulta que você encontre áreas com qualidade melhor. Se não decanta, acaba afetando toda a extensão do rio."

Já o Paraopeba está com rejeito "mais pesado". "Decanta mais rapidamente, as condições de qualidade são diferentes entre a superfície e a partir de 1,5 metro e 2 metros, que é onde a gente analisou. Ele consegue, em alguns trechos, ter até um nível suficiente de oxigênio na superfície que permite a vida aquática. O Rio Doce não tinha oxigênio."

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