Aos 50, Pauliceia ganha festa e memorial

Edifício, que faz conjunto com o São Carlos do Pinhal, é ícone da Paulista

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

30 de março de 2009 | 00h00

Entre fins da década de 1990 e o início dos anos 2000, o conjunto de edifícios Pauliceia e São Carlos do Pinhal, um dos poucos condomínios residenciais remanescentes da Avenida Paulista (são somente 11, entre 102 comerciais), esteve cotado para implosão. "A estrutura estava abalada, com falhas no concreto e problemas nas caldeiras e casa de máquinas", conta o atual síndico, o sociólogo Claudionor Oliveira. "Tomamos consciência depois que as pastilhas da fachada começaram a ruir. Colocamos a mão no bolso." A reforma, que custou R$ 1 milhão em 2005, mexeu não só com a estrutura dos prédios, mas com a consciência dos moradores - foi a partir dali que surgiu a ideia de comemorar, neste ano, o cinquentenário do edifício, com lançamento de livro e coquetel. Até o fim de 2010 está prevista a construção de um memorial ao conjunto, iniciativa inédita em prédios residenciais na cidade.Na festa dos 50 anos, realizada na sexta-feira, com jantar servido pelo restaurante Porto Rubaiyat, foram contadas uma história conhecida - a do surgimento da Avenida Paulista, mostrada num vídeo - e causos inusitados sobre o conjunto. Como quando um artista, líder da Jovem Guarda, teria tentado alugar uma das unidades. "O Roberto Carlos ouviu um ?não?, ué. Ficamos com medo da bagunça e negamos", conta, entre risos, Manuel dos Santos, de 78 anos, zelador do prédio na época e morador mais antigo do edifício. "Sempre foi um prédio familiar. Desculpas ao Rei, mas na época procuramos atuar com zelo."Durante a comemoração, fechada para os 450 moradores das 240 unidades dos prédios, também foi lançado o livro O Fantasma da Paulista, da escritora e apresentadora Isabel Vasconcellos - moradora do Pauliceia desde 1984 -, cujo enredo é ambientado no conjunto. Como protagonista do livro, o fantasma do engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, idealizador da Paulista, fundada em 8 de dezembro de 1891. "O hibisco que temos na praça entre os dois prédios é parte importante da história. Embaixo dele fica o tesouro que o fantasma de Joaquim procura, um tesouro que, no livro, influenciará o desenvolvimento do País", conta.Para lembrar a história dos edifícios - projetados por Jacques Pilon e Giancarlo Gasperini, com construção iniciada em 1956 e encerrada em 1959 -, está sendo construído um memorial, no térreo do São Carlos do Pinhal. "Temos a pesquisa histórica e agora estamos juntando objetos dos anos 50, para situar o prédio no tempo", diz o síndico. No térreo do Pauliceia, está sendo montada uma biblioteca. "Sabendo da história do local onde vivem, os moradores vão valorizá-lo ainda mais." O conjunto é tombado pelo órgão estadual Condephaat e está em processo de tombamento pelo órgão de proteção municipal Conpresp.No conjunto - "o mais filmado do Brasil", como se gabam os moradores, por ficar em local utilizado por emissoras de TV para passagens externas, ao lado do prédio da TV Gazeta -, já viveram personalidades como o marchand Pietro Maria Bardi, o ator Marco Nanini, o maestro Diogo Pacheco e os cantores Paulo Sérgio e Wilson Simonal. "Mesmo nos piores momentos, sempre foi difícil encontrar unidades. Hoje, não há nenhuma à venda", diz o síndico.Outro motivo de orgulho para os moradores é o local onde o conjunto foi construído: o terreno de 500 m² é o mesmo em que ficava o primeiro casarão construído na avenida, pertencente ao empresário dinamarquês Adam Von Bullow, antigo dono da cervejaria Antarctica. "Completamos 50 anos com intenção de que dure bem mais que outros 50", diz outra moradora, Clotilde Pelosini, de 74 anos, proprietária de um apartamento no local desde 1960. "Essas histórias não podem morrer."MODERNISTASOs dois prédios (gêmeos, com vão de 30 metros entre eles) são perfeito exemplo de arquitetura moderna. Apresentam fachada com linhas retas, sem ornamentos; pilotis no térreo, para liberar passagem para a praça entre os dois prédios; janelões de 4 metros por apartamento, que não permitem distinguir os diferentes tamanhos entre as unidades (entre 70 m² e 194 m²). Persianas de madeira e pastilhas coloridas na fachada são outras características que distinguem os prédios, em meio aos envidraçados da avenida.Hoje, as instalações estão bem conservadas e os jardins internos, com curvas inspiradas no estilo de Burle Marx, impecáveis. Bem diferente da situação encontrada na década de 1990, auge do processo de degradação - na época, eram comuns intervenções dos bombeiros, chamados para resfriar, com mangueiras, as antigas caldeiras do conjunto. "Reformamos mantendo a originalidade do projeto inicial. Aliás, nem se quiséssemos conseguiríamos mudar muito. Basta começar uma reforminha que desce um enxame de arquitetos moradores, para dar recomendações", conta o síndico. "Mas não é incômodo, ajudam a deixar os prédios como eles devem ser." NÚMEROS450 pessoas moram nos edifícios 240 unidadessão distribuídas em duas torresR$ 1 milhão foi o custo da reforma2010 é a data prevista para a finalização do memorial aos prédios70 m² é a área da menor unidade194 m² é o tamanho da maior

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