Raphael Gomide/IMPA
Raphael Gomide/IMPA

Aos 98 anos, morre Maurício Peixoto, um dos fundadores do IMPA

Pesquisador de renome internacional, Peixoto foi presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira de Matemática

Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2019 | 18h07

RIO - O matemático Maurício Matos Peixoto, um dos fundadores do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), morreu neste domingo, 28, aos 98 anos, no Rio de Janeiro. Pesquisador de renome internacional, Peixoto foi presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). A causa da morte não foi divulgada.

Ele será velado na segunda-feira, 29, das 14h às 18h, no cemitério Memorial do Carmo, no Caju, na zona norte do Rio. Em seguida deve ser cremado, em cerimônia sobre a qual não havia informações até as 16h45 deste domingo.

Peixoto publicou mais de 40 trabalhos e recebeu vários prêmios, como o Moinho Santista, em 1969, então considerado um dos mais tradicionais estímulos à produção intelectual brasileira. Também recebeu o Prêmio de Matemática da Academia Mundial de Ciências (TWAS), em 1987. Recebeu ainda a Grã-Cruz e a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, entre outras homenagens.

“A vida e trajetória de Maurício se confundem com a história da matemática brasileira, que ele ajudou a criar e inspirou muito. Fico feliz que ele tenha podido testemunhar a promoção do Brasil ao grupo de elite da matemática mundial e o Congresso Internacional de Matemáticos realizado no Brasil”, afirmou Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA.

O pesquisador nasceu em 15 de abril de 1921 no município cearense de Iguatu. Era filho de José Carlos de Matos Peixoto, que governou o Ceará de 1928 até 1930, quando foi deposto pelo governo provisório do presidente Getúlio Vargas. Em seguida, a família se mudou para o Rio de Janeiro.

Seu interesse pela matemática surgiu aos 11 anos, quando esteve prestes a ser reprovado nessa disciplina durante os estudos no Colégio Pedro II, no Rio. Peixoto recebeu então aulas particulares do também cearense Nelson Chaves, amigo da família e aluno da Escola de Engenharia, que o ajudou a passar no exame de segunda época.

“Começamos da estaca zero e fiquei deslumbrado com as aulas de Nelson. Já nessa época decidi que iria estudar alguma coisa que envolvesse matemática”, contou Peixoto em entrevista ao livro IMPA 50 Anos.

Como na época a carreira de matemático não existia, Peixoto foi cursar Engenharia na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro). Lá, fez amizade com os colegas Leopoldo Nachbin, “companheiro inseparável” e também fundador do IMPA, e Marília de Magalhães Chaves, com quem se casaria em 1946. Os dois foram influências importantes para que Peixoto se tornasse matemático.

Em 1943, Peixoto concluiu o curso de engenheiraria civil, profissão que nunca exerceu. Gostava mesmo era de estudar e ensinar matemática. Na mesma universidade foi aprovado no concurso de livre-docência de Mecânica Racional, em 1947, e no da cátedra da mesma disciplina, em 1952.

IMPA

Foi também em 1952 que, ao lado de Lélio Gama e de Leopoldo Nachbin, Peixoto fundou o IMPA, primeira unidade científica do CNPq, criada com o objetivo de estimular a pesquisa científica em matemática, formar pesquisadores, difundir e aprimorar a cultura matemática no Brasil. De início o instituto não tinha sede própria: foi alojado temporariamente em uma sala da sede do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CNPF), criado três anos antes na Urca, na zona sul do Rio.

Em 1964 Peixoto se mudou para os Estados Unidos para dar aulas na Brown University, onde ficaria até 1970. O convite veio de Solomon Lefschetz, matemático que conhecera em 1957, quando passara um ano na Universidade Princeton, trabalhando em Estabilidade Estrutural de Equações Diferenciais. De volta ao Brasil, deu aulas no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USP), de 1973 a 1978.

Peixoto desenvolveu importantes estudos no IMPA. O Teorema de Peixoto, que caracteriza os campos de vetores estruturalmente estáveis em variedades compactas de dimensão, foi um marco matemático no Brasil e no mundo, relacionado a Sistemas Dinâmicos.

Em 1962, Peixoto orientou os estudantes estrangeiros Ivan Kupka e Jorge Sotomayor, que fizeram destacados trabalhos de Sistemas Dinâmicos, com repercussão internacional imediata. As duas teses foram passos iniciais para alçar o IMPA a instituição de pesquisa de nível internacional.

Peixoto trabalhou ainda com o matemático norte-americano Stephen Smale, ganhador da Medalha Fields em 1966 e que visitou o IMPA em diversas ocasiões.

O matemático foi o segundo brasileiro a falar como palestrante convidado em um Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), na edição de 1974, em Vancouver (Canadá). O primeiro havia sido seu parceiro Leopoldo Nachbin, em Estocolmo (Suécia), em 1962.

Peixoto presidiu o CNPq em 1979 e 1980. No ano seguinte, assumiu a presidência da Academia Brasileira de Ciências, na qual ingressara em 1949. Exerceu o cargo por dez anos, até 1991, quando se tornou pesquisador emérito do IMPA. Cinco anos depois foi nomeado membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia.

O matemático se casou três vezes (com Marília, Maria Lucia Alvarenga Peixoto e Alciléa Augusto) e teve quatro filhos: Martha, Ricardo, Marcos e Elisa.

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