Aos poucos, degradação destrói Hospital Matarazzo

Ícone da arquitetura paulista, prédio tombado foi interditado pela Prefeitura

Rodrigo Brancatelli, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

18 Fevereiro 2009 | 00h00

É um exercício e tanto de imaginação olhar hoje para os corredores do Hospital Matarazzo e se lembrar da época em que homens de chapéus corriam apressados por ali, ansiosos em conhecer os filhos recém-nascidos. Ou mesmo tentar estimar quantas e quantas famílias carentes foram atendidas gratuitamente naquelas salas, graças às doações de famílias ricas italianas que sonhavam em criar um centro médico de qualidade para os menos favorecidos. Não há mais sonhos ali, definitivamente. Muito menos vida. Talvez a única pressa que exista atualmente é a dos moradores da região, dos ex-funcionários e de seus ex-pacientes, que tentam salvar o hospital do mais completo estado de abandono e destruição. Há uma década e meia, o palacete florentino entre as Ruas São Carlos do Pinhal, Itapeva e Alameda Rio Claro, próximo da Avenida Paulista, está totalmente sem uso. É uma das joias arquitetônicas de São Paulo, tombado tanto pelo conselho de patrimônio público municipal quanto pelo órgão estadual. Mas isso não impediu a degradação - há pedaços inteiros de forro no chão, além de um sem-número de goteiras em quase todos os cômodos. Equipamentos hospitalares se amontoam em alguns cantos, juntando pó e servindo de abrigo para ratazanas. Parte do teto está ruindo. E qualquer vislumbre da imponência de outrora está sendo destruído a olhos vistos por infiltrações e rachaduras. Anteontem à tarde, levada por uma denúncia anônima de um estacionamento irregular que funcionava no local, a Prefeitura interditou todo o imóvel por falta de segurança. Mas ainda não há planos de revitalização para o local. Na tentativa de reerguer o hospital, um grupo de cerca de 30 vizinhos, ex-funcionários e ex-pacientes chegou a montar uma campanha na internet para lembrar a história do Matarazzo e discutir projetos para a ocupação. "Não dá para o governo tombar um lugar tão importante e deixar que ele fique abandonado e estragado", diz a presidente da Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César (Samorcc), Célia Marcondes. "Vamos lutar para que o Hospital Matarazzo volte a ser importante para a capital." Também conhecido como Umberto I, o Hospital Matarazzo foi inaugurado em 1915 pela Societá Italiana de Beneficenza in San Paolo com o slogan "a saúde dos ricos para os pobres". A maternidade era vista como a melhor da América do Sul - entre seus funcionários estava a parteira oficial da família Matarazzo. Ali também se montou o primeiro banco de sangue do Estado de São Paulo. Mas, por falta de recursos, o complexo hospitalar foi fechado e vendido em 1996 para seus atuais proprietários, a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ). A campanha pelo resgate do hospital ganhou no fim do ano passado um blog (hospital-matarazzo.blogspot.com) e uma comunidade no Orkut. O grupo estuda agora entrar com um pedido de ação civil pública no Ministério Público para obrigar a Prefeitura a retomar a posse do imóvel e a criar ali um outro complexo médico, um museu ou mesmo um centro educacional - a Fundação Getúlio Vargas sempre sonhou em ampliar seu câmpus para aquela área, diga-se de passagem. O Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp) afirmou que enviou um ofício para o fundo de previdência determinando um prazo de 30 dias para elaborar relatório e diretrizes preliminares de recuperação do conjunto. A Previ alegou que o local não está em situação precária e que vai estudar as medidas cabíveis. O caso do Hospital Matarazzo pode servir também como uma espécie de bandeira para iniciativas semelhantes - com a ajuda de diversas entidades de bairro, Célia Marcondes pretende criar o Conselho Popular Pró-Preservação do Patrimônio Paulistano. "A decisão do tombamento está nas mãos de poucas pessoas, que não conseguem fazer o acompanhamento dos bens", diz. "Queremos que a sociedade possa ajudar nesse processo, justamente para tentar conter a degradação."

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