Aos poucos, Duda sai da toca

Marqueteiro, que coordena cinco campanhas estaduais de diferentes partidos, foge de entrevistas desde que virou réu do mensalão

Malu Delgado, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Ele agora diz que está "mais para guru do que para operário" e que voltou "para ganhar". Se há algo que Duda Mendonça sabe fazer bem é vender o seu peixe.

Depois das mazelas jurídicas que desgastaram sua imagem - o mensalão de 2005 que o levou ao banco dos réus no Supremo Tribunal Federal por lavagem de dinheiro, e a rinha de galos em 2004 que gerou um processo na 9ª Vara Criminal de Salvador -, o publicitário e marqueteiro volta atuante a um mercado cercado de sombras pelas altas somas que movimenta e não esconde o medo da imprensa.

"A imprensa torce tudo. E sabe o que acontece? Muitas vezes não é a minha vida, é a vida do candidato", disse ele na última terça-feira, quando acompanhava Paulo Skaf (PSB) no debate Estadão/TV Gazeta com candidatos ao governo de São Paulo. Por várias semanas o Estado tentou uma entrevista com Duda. Ele não retornou e-mails e ligações telefônicas. A chance de uma conversa rápida ocorreu em intervalos do debate no estúdio.

Duda Mendonça coordena, nestas eleições, a campanha de cinco candidatos a governador - Roseana Sarney (MA), Hélio Costa (MG), Paulo Skaf (SP), Ricardo Coutinho (PB), Siqueira Campos (TO) - e de outros oito candidatos ao Senado. Ninguém diz abertamente quanto o trabalho de Duda custa.

A partir de informações de integrantes das campanhas, é possível aferir alguns valores. O custo das campanhas para governador varia de R$ 10 milhões a R$ 15 milhões. Para o Senado, o gasto seria de R$ 3 milhões e R$ 5 milhões. Pacotes casados ficam mais baratos. Entendidos em publicidade explicam uma regra básica: o custo de uma campanha embute criação, produção e risco. Ou seja: um terço do custo equivale ao que o marqueteiro sabe que não vai receber.

Amigos, inimigos, marqueteiros, políticos e admiradores têm várias teses diferentes para a volta de Duda. A mais factível é que o marqueteiro-gênio precisa refazer um portfólio de vitórias e se prepara para deixar um legado à sua empresa, ainda que aos poucos deixe o marketing político. O Duda Mendonça que retorna tem um tom professoral. "O povo é muito esperto. Saca tudo. Depois de tanta campanha, foi o povo que virou marqueteiro", diz, nos intervalos do debate.

Respeitado por políticos, ele dá palpite sobre tudo. Usa as pesquisas qualitativas como Bíblia. "Ih, o eleitor não vai gostar disso, parece demagogia", comenta, após uma frase de Celso Russomanno (PP) no debate. Segundos depois, pisca na tela do seu computador o comentário de um eleitor recrutado num grupo de "qualis": "Ele é demagogo."

"Sou bruxo", diz o marqueteiro com seu sotaque baiano. Quando questionado sobre o excesso de citações que Aloizio Mercadante (PT) faz sobre Lula, dispara: "É over."

"Esse mundinho aqui não interessa. O cara está falando para o eleitor lá fora", emenda.

Videoblog. Duda Mendonça quer aparecer, mas não está disposto a ser colocado na berlinda. Há algumas semanas ele criou um videoblog (www.videoblogdoduda.com.br) onde conta histórias sobre as campanhas que coordena e sobre o passado.

"Depois de tudo o que sofri eu fui chamado pelo Brasil inteiro para fazer campanha, de todos os partidos, e em muitos Estados dos dois partidos, um de um lado e um do outro", diz ele, referindo-se ao PT e ao PSDB.

O retorno de Duda vem cercado de polêmicas. Uma delas é a disputa em São Paulo. Ele faz a campanha de Marta Suplicy (PT) ao Senado e a de Paulo Skaf ao governo. A campanha de Aloizio Mercadante (PT) ao governo é tocada por Augusto Fonseca, que já trabalhou com Duda.

"Duda aproximou Skaf de Marta, o que foi bom para a campanha", afirma o presidente do PSB paulista e coordenador político da campanha de Skaf, deputado Márcio França. Aliados de Mercadante não escondem o constrangimento. A campanha de Marta segue dando passos próprios, já que é impossível discutir estratégias com o marqueteiro que faz a campanha de um adversário de Mercadante. Ainda assim, Duda e Mercadante têm ótimo relacionamento. O petista foi um dos que defenderam, em 2002, a integração de Duda à campanha de Lula.

Aliás, Duda é figura respeitada entre os petistas com os quais já trabalhou, como Jaques Wagner e José Genoino. Já o atual marqueteiro de Dilma Rousseff, João Santana, é um aliado de Antonio Palocci.

O compromisso de Duda com Skaf é fazer com que ele chegue a dois dígitos na pesquisa. O publicitário, que prestou consultoria para a Fiesp, presidida por Skaf até maio, teria nesta campanha sua conta mais generosa (10% do total do custo da campanha), segundo comenta o mercado.

O rompimento de Duda com Lula se deu não apenas por conta do mensalão e de sua rixa com João Santana. Segundo dirigentes petistas, Duda passou a se considerar o responsável pela vitória do presidente em 2002 e a "se meter em política", tentando pilotar uma agência de publicitários que trabalhavam para o governo e definir suas contas.

Em Minas, o queridinho de Duda é o ex-ministro Patrus Ananias, que passou a ter protagonismo na campanha a partir de resultados de qualitativas que mostravam sua ótima imagem entre os eleitores.

No Maranhão, Duda surpreendeu ao trabalhar para Roseana, já que havia mantido conversas com Jackson Lago (PDT). Segundo aliados da governadora, o PMDB local o convenceu a mudar de lado.

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