Apagão aéreo leva 30% mais gente ao litoral

Como miséria pouca é bobagem, paulistas que escaparam da cilada do overbooking enfrentaram até sete horas de caos na estrada coberta por neblina, pedágios extorsivos, radares traiçoeiros aqui e ali na pista molhada, fumaça de caminhão marcha lenta e, para completar, um dia chuvoso como o que marcou a sexta-feira de Maresias e outros paraísos de São Sebastião, no litoral norte.Muitos deles, filhos do apagão aéreo, sabem que o jogo é assim e não se arrependem da escolha que fizeram - em vez de enfrentar o inferno dos aeroportos, o desvio de bagagens e a incerteza da chegada, preferiram descer a serra com todos os seus problemas e limitações. "Foi excelente para alguns setores, principalmente a rede hoteleira", afirma o empresário Lupércio Conde Júnior.Dono do Hotel Pousada do Conde e presidente da Associação dos Hotéis e Pousadas de Maresias, ele conta que o apagão atraiu um exército de turistas que antes planejavam passar Natal e réveillon em outras praias, preferencialmente do Norte e Nordeste. "O movimento cresceu pelo menos 30%", diz, destacando que já no dia 18 todos os pacotes de hospedagem estavam encerrados. "Em tempos normais, estaria fechando apenas hoje (sexta)."O assessor de Turismo do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes da região, José Carlos de Souza, diz que o litoral norte vai atingir quase 100% de sua capacidade. No geral, os pacotes para hospedagem custam entre R$ 1,2 mil e R$ 4 mil. Mas há casos como o DPNY Beach, em Ilhabela, que teve 100% das reservas fechadas já no mês passado, com pacotes entre R$ 6 mil e R$ 16.500.A procura por imóveis para aluguel também subiu 30% em relação ao ano passado. "Qualquer que seja a quantidade de imóveis anunciada, é alugada imediatamente", conta Davi Lages, sócio da imobiliária Nova Opção, de Caraguatatuba. Não é de espantar, portanto, que já haja golpistas atentos ao "filão". Em apenas uma semana, a polícia de Ubatuba registrou seis ocorrências de gente que alugou uma casa pela internet, pagou adiantamento e, ao chegar ao litoral, descobriu que o ela não estava disponível. A recomendação é que, antes de alugar qualquer imóvel, o interessado entre em contato com a prefeitura para saber se o locador é idôneo.IncômodosTamanha movimentação chega a incomodar quem freqüenta a região também em épocas tranqüilas. O presidente da Sociedade Amigos da Praia de Maresias, Aldo Amadei, por exemplo, diz que nesta época não tem vontade de sair de casa. Logo ressalta, porém, que a invasão tem lá seu lado bom. "É ruim para quem mora aqui, mas bom para quem ganha dinheiro com turismo. Muitos torcem para que a temporada chegue logo. É um caos bem-vindo."Ele estima que sua Maresias, que tem 6 mil moradores, abrigará por esses dias cerca de 50 mil forasteiros. Grande parte da multidão vai se alojar em condomínios - uns 20 de alto padrão -, chalés e pousadas, que são 170, nem todas com a papelada em ordem. Ele espera que os 5 quilômetros de areia fina e água cristalina de Maresias e também das praias vizinhas - Camburi, Paúba, Toque-Toque Grande e Pequeno, Baraqueçaba, Juquehy - consigam suportar tamanha pressão e consumo. Com 75 mil habitantes, o município todo de São Sebastião terá hoje, na passagem do ano, 400 mil turistas. Normalmente, chegam entre 320 mil e 350 mil. "A infra-estrutura dos hotéis e condomínios fechados é muito boa, mas vai ser um pico muito grande de consumo de água e luz", alerta Amadei. Muitas caixas d´água, no fim do dia, ficam praticamente secas porque as bombas de pressão não dão conta."Não tenho medo desse movimento absurdamente maior. Se a gente não pode contar com o poder público, a gente improvisa e cria mecanismos de defesa", diz Lupércio. "Já é uma rotina a cidade se preparar para esta época. Não há temor de falta de água ou luz. Estamos preparados para a demanda. Em princípio, conseguiremos suprir todas as necessidades", garante Buzi.

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