Aparelho teria indicado risco de rompimento de barragem em Mariana

Em depoimento ao MP, projetista de represa disse que piezômetros apontaram instabilidade em dezembro de 2014; Samarco nega

Leonardo Augusto, Especial para O Estado

27 Janeiro 2016 | 03h00

BELO HORIZONTE - Piezômetros instalados na barragem da Samarco que ruiu no município de Mariana, em 5 de novembro, já apontavam instabilidade da represa em dezembro de 2014. A informação foi dada pelo projetista da estrutura, Joaquim Pimenta de Ávila, em depoimento ao Ministério Público Estadual (MPE). A empresa nega problemas.

Os piezômetros são equipamentos que medem a pressão que a água pode exercer dentro da barragem. Na queda da represa, rejeitos de minério de ferro atingiram o distrito de Bento Rodrigues, que foi destruído. Dezessete pessoas morreram e duas estão desaparecidas.

A instalação dos piezômetros foi uma recomendação feita pelo projetista da represa, que também trabalhou como consultor tanto para a barragem de Fundão, que ruiu, como para a de Germano, que hoje passa por reforço. No depoimento, Ávila afirma que teve contato com “seus resultados (dos piezômetros) em dezembro de 2014” e “estes resultados ainda não atendiam às condições ideais de estabilidade”.

Depois de tomar conhecimento dos resultados, o consultor afirma ter alertado a Samarco sobre a necessidade do reforço de aterros, como, nesse caso, são chamadas obras para, no jargão do setor, “travar o pé da barragem” para evitar queda. Em 2014, do relatório anual que a empresa é obrigada a apresentar à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) sobre as condições técnicas de represas, o documento relativo à Fundão, assinado pelo engenheiro Paulo Goulart Gontijo, constam 11 recomendações. Entre as quais pedidos para reparação de “trincas nas canaletas já existentes”. O laudo é de 21 de agosto. O documento atestava que a barragem estava em condições de funcionamento.

Sem advertências. Procurada, a Samarco informou que “o consultor Joaquim Pimenta de Ávila jamais advertiu sobre risco de rompimento da barragem”. “Joaquim Pimenta de Ávila, inclusive, inspecionou a barragem do Fundão em setembro de 2014, tomou conhecimento das providências adotadas pela Samarco em relação às recomendações e não apresentou qualquer advertência sobre a barragem nessas oportunidades”, informou em nota.

A empresa disse ainda que “o manual de operações da barragem de Fundão elaborado pelo consultor Joaquim Pimenta de Ávila sempre foi observado pela Samarco, assim como foram consideradas todas as suas recomendações técnicas”. Também segundo a mineradora “os instrumentos de monitoramento da barragem de Fundão indicavam sua estabilidade em todas as seções, até a surpreendente ruptura abrupta”.

“Por fim, é lamentável que a principal fonte de especulações sobre riscos e causas do acidente seja o próprio projetista e consultor da barragem do Fundão por cerca de uma década. Não parece crível que o próprio autor de várias inspeções, relatórios e recomendações técnicas que serviram de base para toda a operação da barragem esteja simplesmente a negar a excelência que deveria marcar seu trabalho.”

Fiscalização. O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada do Estado de Minas (Siticop-MG) pediu nesta terça-feira, 26, à Delegacia Regional do Trabalho (DRT-MG) que faça fiscalização na unidade da Samarco em Mariana. Conforme o presidente da entidade, José Antônio da Cruz, não existem hoje informações sobre o grau de insalubridade em áreas da empresa, por causa dos rejeitos de minério de ferro que vazaram da barragem de Fundão. “A lama tem química. Ninguém sabe ao certo qual a situação lá”, disse José Antônio.

O sindicato representa funcionários que trabalham, por exemplo, na retirada de lama de estradas utilizadas dentro da planta e em obras realizadas na estrutura das barragens, conforme o presidente do Siticop. São representados pelo sindicato, por exemplo, os funcionários de empresas terceirizadas que morreram no rompimento de Fundão.

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