Apedrejamento é 'coisa bárbara', afirma Dilma

Ao contrário de Lula, eleita condena essa forma de punição usada no Irã, mas promete diálogo com quem quiser negociar 'em paz'

Leonencio Nossa, Tânia Monteiro / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2010 | 00h00

A presidente eleita Dilma Rousseff disse ontem que é "radicalmente" contra a decisão que chegou a ser adotada pelo Irã de apedrejar Sakineh Mohammadi Ashtiani, acusada de adultério e de participar do assassinato de seu marido. "Acho uma coisa muito bárbara o apedrejamento da Sakineh", afirmou Dilma, em entrevista no Palácio do Planalto - sem mencionar que a punição já foi derrubada e trocada pela pena de enforcamento. "Mesmo considerando os usos e costumes de outros países, (o apedrejamento) continua sendo bárbaro", disse ela.

A sentença dada pelo regime dos aiatolás iranianos mobilizou, até semanas atrás, governos e entidades internacionais de direitos humanos. Ao considerar "bárbaro" o apedrejamento da iraniana Sakineh, Dilma ressaltou que pretende manter o diálogo com o Irã e qualquer país que queira negociar em "paz" com o Brasil.

A presidente eleita enfatizou uma posição "intransigente" em defesa dos direitos humanos mas fez ressalvas ao modo de se lidar com países em que o assunto seja um problema. "Essa posição se reflete no plano da diplomacia como opção clara por uma manifestação que conduza à melhoria nos direitos humanos, não necessariamente (uma manifestação) estrondosa", afirmou Dilma. "Para você conseguir melhorar nos direitos humanos, tem que negociar. No meu governo não haverá dúvida a respeito."

Assessores da área internacional do governo entenderam a declaração de Dilma como uma sinalização de que ela fará mudanças na política externa. Eles lembram que, no caso Sakineh, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre evitou fazer comentários, argumentando que qualquer posicionamento sobre a condenação da iraniana seria uma "avacalhação" e uma interferência em assunto interno de outro país. Lula foi criticado por não condenar a sentença.

Outros assessores preferiam ser mais comedidos. Eles observaram que a declaração da presidente eleita contra o apedrejamento de Sakineh, pelo menos neste momento. faz parte da estratégia do presidente Lula de mostrar que sua sucessora tem visão e ideias próprias.

A área de direitos humanos é uma das poucas em que a presidente eleita poderia apresentar uma posição diferente da do atual governo. Um dos principais fatores para isso é que Dilma foi presa e torturada durante a ditadura militar.

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